Ah, a noite das garotas. Tão esperada! Algumas horas de puro deleite.
Cristiane aguardava ansiosamente pelo chope com as amigas.
Quem reserva um dia da semana, do mês, do ano ou do século para sair com as amigas, sabe do que eu estou falando. Aliás, falar é o que fazemos de melhor nesses eventos, entre um copo e outro (Cristiane nem pedia, o garçom ia trazendo e ela é muita educada, não conseguia dizer não a ele).
Nós, mulheres, temos um talento natural para a conversa: conseguimos migrar de um assunto a outro e voltar ao anterior sem que ele se perca. Falamos mal da mãe, do pai, dos filhos, do marido e depois falamos bem da mãe, do pai, dos filhos. Dos maridos e namorados, geralmente continuamos a falar mal. Esse provavelmente é um código de conduta secreto. Não é nem que eles sejam tão ruins assim, mas vai que a gente fala bem e alguma das amigas se empolga? Precaução e canja de galinha não faz mal a ninguém… Posso ser sincera? Amigas a gente até perde aqui, encontra outra ali. Mas marido? Ah, duvido que alguém discorde de mim. Esses são raridade no mercado, valiosíssimos. Alguns vem com defeito de fabricação ou adquirido pela quilometragem rodada, mas a lei da oferta e da procura é implacável: melhor se contentar com o que tem.
E assim, Cristiane passou uma noite agradabilíssima com suas amigas. Em casa, Paulo, seu precioso marido, tomava conta das crianças, aquele ritual que conhecemos bem: lição de casa, jantar, pijama, escovar os dentes, brigar para dormir. Só quem tem sabe o quanto dá trabalho. Mas Paulo é um maridão moderno (ninguém aqui está querendo elogiar demais) e compreende as necessidades de sua amada.
Sabe como é, a hora vai passando e a gente nem percebe. Nos dias de hoje, em que precisamos ser cidadãos corretos e conscientes, seguimos a regra de não dirigir ao beber. Então precisamos esperar o táxi, aquele que vem bem devagar e sóbrio pelas ruas da cidade. Foi isso que ela fez. Pegou um táxi e foi para casa, feliz da vida.
Naquela noite, Cristiane entrou em seu apartamento tentando fazer o maior silêncio possível. Talvez ela estivesse andando em ziguezague, mas não se recorda realmente. Foi tudo muito rápido, ela se deitou e dormiu.
Acordou no meio da madrugada, sentindo falta daquele calor humano ao seu lado. Suas mãos tatearam o lado esquerdo da cama.
“Que horas são? Cadê o Paulo?”
Cristiane se levantou e foi até o banheiro, a sala, a varanda. Nada do homem.
“Onde ele está? Aliás, ele estava aqui quando cheguei?”
Ah, o celular. Ele deve ter deixado uma mensagem no celular. No mesmo momento Cristiane sentiu um frio na barriga. Paulo adorava reclamar que nunca a encontrava quando precisava, que ela nunca atendia o celular. Culpada! A bateria tinha descarregado há horas e ela nem se preocupou com isso. É claro, todos os pensamentos ruins vieram à tona:
“Aconteceu uma tragédia. Ele precisou de mim, não me encontrou, está em algum hospital com as crianças, sozinho e eu aqui, de ressaca e me sentindo a pior mãe do mundo.”
Eu sei que este texto está cheio de parênteses, mas preciso abrir mais um para esclarecer: Cristiane tem sangue espanhol, com uma família bem chegada no drama (em geral imaginários) e os espanhóis tem suas raízes culturais no catolicismo, então a culpa mora com essas pessoas.
Bem, a esta altura, com a tragédia anunciada, seu coração estava disparado, as mãos suando, o pileque totalmente curado. Ela colocou o telefone para carregar e assim que o maldito pegou (isso mesmo, parecia que ia pegar no tranco), Cristiane notou que não havia nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nada. Isso era ainda pior do que ela imaginava. Ele nem tentou falar com ela, já sabia que não encontraria ajuda. As lágrimas começaram a se pronunciar.
Três tentativas no celular dele e nada. Mau sinal. Ele deve estar p. da vida. Será que saiu de casa? Será que eu exagerei?
Cristiane respirou fundo e decidiu que não ligaria para a casa da mãe. Era o meio da madrugada e o pânico seria maior. E para completar, ela começou a ficar furiosa:
“Como ele pode fazer uma coisa dessas? Quem ele pensa que é? Eu fico com o apartamento!” Ela então voltou para a cama e ficou esperando sentada, literalmente.
O telefone tocou. O coração, que já estava fora de compasso, quase parou de bater. Os flashes e as imagens de tudo que poderia estar acontecendo passaram pela sua cabeça:
- Paulo?
- Eu posso saber o que a senhora quer comigo a esta hora da madrugada? – ele falou numa voz baixa, quase inaudível.
- Paulo, aonde você está? O que aconteceu? – ao contrário, a voz dela era esganiçada, mostrando total desespero.
- Estou no quarto do seu filho.
- O quê?
- No quarto do seu filho, mais conhecido como o quarto ao lado. Você não percebeu, mas especialmente hoje, você está roncando e eu preciso dormir.
Ninguém sabe o que se passou depois disso. Cristiane guardou essa parte da história para si e o Paulo só dá uma risadinha quando nos lembramos do assunto.
Apesar de engraçadíssima, quando ouço essa ‘causo’ sempre me pergunto: quanta angústia e sofrimento poderíamos poupar se, ao invés de pensarmos o pior, nossa criativa cabecinha inventasse finais felizes?
P.S.: essa não é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes e fatos, é mera reprodução da verdade. Cris, a gente se vê no próximo ‘chope’ e obrigada por me deixar compartilhar sua história.
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