Desde que me conheço por gente (e isso é mais ou menos a partir dos meus 7, 8 anos), ler é algo tão natural quanto respirar, comer, andar. Eu não era uma criança esperta, que gostava de praticar esportes ou brincar de boneca. Meu prazer era ler, ler, ler. O mergulho no mundo literário começou com a Coleção Cachorrinho Samba, a série Vaga-Lume, os contos de fada da Disney. Marcos Rey era meu ídolo na adolescência, porque me deixou obcecada com “O Rapto do Garoto de Ouro” e o “Mistério do Cinco Estrelas”. Mas a minha primeira grande paixão, foi um livro de suspense maravilhoso chamado “O caso da borboleta Atíria”, de Lucia Machado de Almeida.
Mais tarde, mergulhei no mundo de Agatha Christie, seguindo os passos de Hercule Poirot, o detetive mais esperto do mundo. Fiz meus pais ficarem sócios do “Círculo do Livro”, uma espécie de Avon, com direito a uma revistinha (onde eu encontrava todos os lançamentos de livros) e a um consultor de vendas, que trazia os livros em casa, além de conversar comigo sobre o que vendia mais ou menos. Era um senhorzinho, não me lembro o nome dele, mas o dia em que ele apertava a campainha de casa, com um livro novo, era como se Papai Noel em pessoa viesse me visitar. Eu devia ter uns 12 anos (e não havia internet, minha gente!!).
Com a adolescência vieram outros interesses: a escola, os namorados, as festas, as convicções políticas e eu precisava mostrar minha capacidade intelectual, lendo biografias, Jorge Amado, Gabriel Garcia Marques, Hemingway, Jack Kerouac. Não é brincadeira, minha lista é enorme, mas eu costumava ler escondido os livros de Sidney Sheldon e Nora Roberts (esses sim, me faziam ficar acordada até de madrugada, mas eu não contava a ninguém).
Aos 29 anos de idade, eu continuava uma leitora inveterada e guardava meus manuscritos em caixas de sapato, em cadernos, em diários, que ficavam amarelando pelo tempo. Eram meus tesouros, lembranças de uma época em que escrever um poema ou um conto, eram a coisa mais natural do mundo. E foi então que chegou às minhas mãos um livro chamado “Harry Potter e a pedra filosofal”.
Com quase trinta anos, fui acordada, como a Bela Adormecida, pela magia e pelo mundo encantado do menino bruxo. Mas era um livro infanto juvenil, caramba! Eu era uma mulher adulta! A grande resposta em forma de pergunta para isso foi: e daí?
Crianças, jovens e adultos como eu, andavam com Harry Potter em todos os lugares. Era a época do Orkut e os grupos de fãs foram pipocando no mundo todo. No Brasil, não podíamos esperar pela lentidão das editoras em traduzir e editar a versão nacional. Em quatro dias, os livros lançados na Inglaterra estavam traduzidos pelos fãs brasileiros e já circulavam nas redes sociais. Isso não significava que não iríamos comprar o original quando fosse lançado, um ano depois.
Outro fenômeno desencadeado por Harry: não dava para esperar o lançamento do próximo livro e viver o vácuo entre uma história e outra. Começamos então a criar as histórias paralelas, fazendo com que Hogwarts continuasse seu ano letivo, enquanto JK[1] resolvia suas questões editoriais. Nós tínhamos nossas fã-fictions[2] para ler e escrever. Estórias tão boas, ou até melhores do que as escritas por JK.
Este fenômeno não ficou restrito a uma faixa etária. Quando foi lançado o primeiro livro da Saga Crepúsculo, fiz parte de um grupo de fãs que se chamava: “mulheres com mais de 50 anos e que amam Crepúsculo”. Era um grupo composto na sua maioria por americanas, donas de casa, divertidíssimas e hiper criativas.
Perdi o medo e a vergonha. Ler e gostar das histórias de Paulo Coelho ou da Saga Crepúsculo, mesmo que isso arrepie os cabelos da nuca dos intelectuais, dos autores ‘sérios’, é um grito de liberdade. O fato é que existem milhares e milhares de jovens e adultos lendo, escrevendo, trocando livros, enquanto o mercado editorial se lamenta da queda astronômica em suas vendas, atribuindo o fenômeno à baixa qualidade dos autores e à falta de interesse dos leitores. Não dá pra ser mais míope que isso.
Ignorar e desdenhar o sucesso dos 50 tons de cinza, afirmando em alto e bom som que é literatura de baixa qualidade, mal escrita, esquecendo que o livro nasceu de uma fã-fiction e que já era um mega sucesso no ‘universo paralelo’, é parar no tempo e virar poste. Desde quando a opinião de quem lê, deixou de ser importante?
Harry Potter é um mago. O mago da nova era, que abriu as portas para este universo fantástico onde escritores e leitores têm o direito de fazer os Cullen[3] visitarem o Castelo de Hogwarts[4] e Anastasia, Grey, Isabella e Edward[5] irem comer um pizza num sábado à noite.
O mundo mágico está aí. É só querer entrar.
[1] J K Rowling – autora da série Harry Potter
[2] Estórias escritas por fás de um determinado livro ou filme, que usam os personagens, enredos ou locais criados pelo autor original.
[3] Cullen: família de vampiros, personagens da série Crepúsculo.
[4] Castelo do Hogwarts: você não sabe mesmo o que é?
[5] Anastacia e Grey: personagens dos livros da série 50 Tons de Cinza; Edward e Bella, personagens da série Crepúsculo.
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