Aquela do cara do Big Brother

POST MEMORIA

Tenho esse problema, admito, e não é de hoje. Quando eu era adolescente, colocava a culpa nas provas e no monte de matérias que tinha para estudar. Um absurdo, porque eu “só” estudava. Mais tarde, a culpa era do trabalho, da faculdade, das baladas. “Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo”, eu dizia a mim mesma. O tempo passou e ganhei uma casa para administrar, um marido, mais responsabilidade no trabalho, filhos, pós graduação. Olhando para trás, vocês tem ideia de quantas pessoas eu conheci, encontrei, conversei? São os ex-colegas de classe somando-se aos atuais, os vizinhos, os colegas de trabalho, das convenções, os pais dos amiguinhos dos filhos, os tios e primos de todos os graus, o caixa do supermercado, as filas dos shows, sem contar as baladas (dessas lembro menos ainda). E aí, vira e mexe, você se depara com o cidadão, ou cidadã, que te diz: “Oi fulano (sim, ele te chama pelo nome), quanto tempo! Como é que vai?” ou então, exatos 30 segundos após o início de uma reunião com quinze estranhos, o cara começa a te chamar pelo nome e faz o mesmo com os outros catorze participantes da mesa. Irritante. Extremamente irritante. Nossa cabeça tem que guardar fatos históricos do passado, arquivar os livros que lemos, os filmes, as músicas, os comerciais, as emoções, os nomes e o pior: associar os nomes às pessoas.  Quem não se esquece de alguma coisinha, que atire a primeira pedra. As primeiras edições do Big Brother foram uma febre (logo vocês vão entender porque eu estou contando isso). O Brasil acompanhou (de verdade!) tudo que acontecia na tal da casa. Mal sabíamos que a febre viraria uma praga na nossa vida. Mas vamos em frente. Certa tarde, cheguei em um bar e fiquei esperando umas amigas (era a época da solteirice). Numa mesa próxima, chegou um bonitão e logo trocamos olhares. Como eu disse lá no começo, sempre sofri com uma “memória frágil”. Meu alarme interno tocou, e comecei a tentar me lembrar, feito uma louca, de onde eu conhecia o cara. Comecei a acessar meus arquivos: ginásio? Faculdade? Alguma balada? Pedro? Antonio? José? Nada. Nenhuma Pista. Meu pânico começou a aumentar, quando me dei conta de que conhecia intimamente aquele ser. Eu me lembrava dele sem camisa. Como assim? Eu me lembrava da voz dele, vinham imagens do olhar, do sorriso, do peitoral… Faltava muito pouco para ele se levantar e vir até minha mesa. Minhas mãos suavam. Como é que eu ia dizer que não me lembrava dele? Que tipo de garota eu era? Era óbvio que ele se lembrava de mim, pois não parava de me olhar também. Nessa hora, encarei o copo de cerveja à minha frente e comecei a avaliar se era chegado o momento de procurar os tais “anônimos”. Meu cérebro estava seriamente afetado e talvez fosse o efeito do álcool. Minhas amigas chegaram e eu tinha certeza de que poderiam me dar alguma luz. Antes que eu começasse a contar minha triste história, uma delas sussurrou para as outras na mesa: — Vocês viram quem está aí? — Quem? – perguntamos em uníssono. — Aquele cara bonitão, do Big Brother. Sem comentários. O que me consola é que eu sei que é um mal da sociedade moderna (essa é minha mais recente desculpa). Meu amigo, há algum tempo atrás, estava em um treinamento desses pagos pela empresa, em um hotel bacana da cidade. No intervalo do treinamento, ele saiu do prédio para fumar (sim, ainda existem pessoas que fumam).  Lá no ambiente da “fumacinha”, ele se deparou com uma carinha conhecida. Não teve dúvida: — Eu te conheço, mas não consigo me lembrar de onde. – adoro essa abordagem: honesta, direta e corajosa. O cara olhou para ele e muito simpático, respondeu: — Você também não me é estranho… E então os dois começaram a trocar figurinhas: “você estudou no colégio tal?”, “morou no bairro não sei o quê?”, “torce para o São Paulo?”. O cigarro acabou e eles não conseguiram encontrar o elo que os unia. Se despediram e meu amigo voltou para a sala de treinamento. Quando se sentou, o cara do lado lhe disse: — Você viu quem está aqui no hotel? — Não. Quem? — Aquele ator, o Luís Gustavo. Não preciso dizer quem era o amigo bem humorado do fumódromo. Por essas, por muitas outras e pelo peso da idade é que eu relaxei. Há coisas mais importantes, não é mesmo? Só preciso me lembrar quais.


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