Aquela da confusão do tipo sanguíneo

 


Imagem2

Ontem li um artigo do meu querido Thiago Leifert na revista GQ, falando sobre o vício de alguns jornalistas esportivos em narrarem os dramas pessoais dos atletas, transformando estes dramas em histórias de superação e zzzzzz…. Que sono que dá. Somos gêmeos, eu e Thiago. Também não sou chegada ao drama, seja ele real ou imaginário. O drama real está aí, na vida de todos, infelizmente. O que faço de melhor é passar por eles, me concentrando no que pode deixar minha vida mais alegre e mais leve. Quanto aos dramas imaginários, melhor nem comentar. Vejam só o que pode acontecer quando juntamos nosso talento para o drama com uma boa dose de imaginação:

Há alguns anos atrás, seu Alberto, já com a idade avançada, ficou bem doente e precisou passar por uma bateria de exames.  Seu filho Joel, o acompanhou durante todo este processo e notou em um dos exames, que o tipo sanguíneo de seu pai era “A”.

É incrível como algumas pessoas conseguem fazer certas conexões tão rapidamente. Neste caso, acredito mais numa armadilha do subconsciente. Vou explicar: a mãe de Joel era do tipo “A”, logo, “A” + “A”, nunca poderia ser igual a “B” (o tipo de sangue de Joel).

Aquela foi uma tarde difícil. Joel acabara de descobrir que tinha sido adotado ou que seu pai não era seu pai, entende? Quando Joel era um adolescente, as brigas com seu pai eram muito comuns e eles diziam coisas terríveis um para o outro. Mais de uma vez seu Alberto disse que Joel não poderia ser seu filho. Ele dizia isso porque estava com raiva ou porque ele sabia da verdade?

Um choque para um homem de 35 anos, estabilizado, formando uma família. O que é que se faz numa situação dessas? Afinal, ele só conhecia casos assim na TV ou nos livros, nunca na vida real.

Joel resolveu então conversar com sua irmã mais velha, uma alma boa e sensata. A revelação teve uma carga dramática à altura dos fatos e após a narrativa ele perguntou à irmã: “Você vem comigo? Preciso saber a verdade e vou perguntar à mamãe…”

É preciso que a história fique bem situada: a mãe de Joel, uma senhora também com a idade avançada, já estava suficientemente abalada com a doença do marido e agora, seu filho caçula tinha acabado de descobrir um segredo muito bem guardado por mais de 35 anos. Foi pensando nas consequências dessa possível conversa que a irmã de Joel pediu que ele tivesse um pouco de paciência, que esperasse as coisas se acalmarem. Foi o que ele fez.

Infelizmente, seu pai veio a falecer e, mesmo cheio de dúvidas e de muita mágoa, Joel resolveu preservar a memória do homem que o havia criado e nunca confrontou sua mãe sobre o assunto.

O tempo passou e Joel constituiu família. Seu primeiro filho, um homenzinho, tinha acabado de nascer e todos ainda estavam alegres e felizes na maternidade, quando a enfermeira entrou com um envelope.

— Sra. Fulana? Aqui estão os exames do Joel JR, blá blá blá, o tipo de sangue dele é “X”.

Joel empalideceu. Mais uma vez, o ingrato destino batia à sua porta e cobrava uma atitude. O sangue de sua esposa e o seu, combinados, jamais poderia resultar no tipo “X”, de Joel Jr. Como um homem pode sofrer tamanha traição? Ele não era filho do seu pai e não era pai do seu filho! Que inferno de vida!

Desta vez ele não deixaria passar, apesar da alegria que estava sentindo, dos cumprimentos e felicitações que recebia dos amigos. Aquele era para ser o dia mais feliz da sua vida, mas…

— Meu bem, tem alguma coisa errada… – ele disse, com cautela e atenção, para não perder nada da reação de sua esposa.

— O que foi meu bem? – ela, cinicamente, respondeu.

— O Joel JR não poderia ter este tipo de sangue, quero dizer, o meu sangue com o seu, não daria esse, entende?

— O que isso significa? Será que eles erraram o exame dele? Trocaram com o de outra criança? – era muito difícil de acreditar, porque eles estavam em um excelente hospital, o bebê ficou o tempo todo no quarto com eles e todos os procedimentos eram feitos na sua frente, mas tudo era possível. Dona Fulana estava tão feliz e vivendo um momento tão especial, que não deu muita atenção ao assunto. – Assim que der, converso com meu médico e refazemos os exames, tá bom?

Joel ficou muito confuso com a reação dela. Caracas! Será que ela não tinha entendido as implicações daquilo? Ou será que ela estava só ganhando tempo? Mais uma vez, ele não tinha ideia do que fazer: deveria agir como um perfeito macho da espécie, um marido traído e acabar com aquela palhaçada ali mesmo? Ou deveria ser um homem moderno, do século XXI e aceitar que o mais importante são os laços afetivos, afinal deve ter sido uma transa à toa, pai é quem cria, não é isso que todos dizem?

Pois Joel resolveu esperar e esfriar a cabeça. Dali por diante, ia observar direitinho os passos da mãe e daquela criança.

Assim que teve oportunidade, D. Fulana conversou com seu médico. Não preciso descrever aqui as vantagens do sexo feminino em relação ao masculino, mas talvez a mais importante delas é que nós sabemos, antes de todo mundo e antes de qualquer exame, quem é o pai da criança ou pelo menos conseguimos reduzir as possibilidades a um número pequeno de candidatos. Neste caso, D. Fulana não tinha absolutamente nenhuma dúvida, razão pela qual esbanjava tranquilidade. Seu médico, sabendo disso e seguro do resultado do exame do bebê, pediu um hemograma completo (com tipagem), do Sr. Joel.

Joel andou com aquele pedido de exame no bolso por alguns dias. Era possivelmente uma das coisas mais difíceis que ele faria em sua vida. Uma vez que ele fizesse aquele exame e que suas suspeitas fossem comprovadas, ele teria que tomar uma atitude. Uma não, duas, pois ele encostaria sua esposa e sua mãe na parede. Finalmente Joel fez o exame, mas o processo de auto sabotagem continuou por mais alguns dias, porque ele não tinha coragem de ver o resultado.

No dia “D”, depois de tanta angústia, sofrimento, alternativas de vida avaliadas e indefinidas, Joel abriu o exame. Abriu e constatou que seu tipo de sangue era “Y”.

Naquele dia, Joel ganhou um abraço e os parabéns de sua esposa, pois ele ganhou, de uma só vez, um pai e um filho.

PS.: Se você chegou até aqui, merece saber que essa é uma história real. Não vou revelar o nome de todos os personagens. Basta saber que eu era a Dona Fulana! Bjs

 

 

 

 

 


Descubra mais sobre Pausa4fun

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Um comentário em “Aquela da confusão do tipo sanguíneo

Adicione o seu

  1. Pois uma vez, uma senhora desafeta encrenqueira que me torrava as paciências todas, foi visitar uma vizinha aqui do prédio que tinha acabado de ter bebê. Coincidiu (estou pensando se coloco aspas no coincidiu) que eu estava lá, visitando o tal bebê. Ela estava acompanhada do neto, um lindo menino, loirinho com olhos castanhos. Educada, falei que o tal neto era lindo (e era mesmo!). E blá-blá-blá. Lá pelas tantas, ela foi falando que a filha dela tinha magníficos olhos azui, que o genro também tinha olhos azuis, mas, que o netinho tinha olhos castanhos. Lembrei de minhas aulas de genética. Controlei minhas expressões para não mover qualquer músculo e fiquei com a boca fechada. Sem querer, estava eu na frente de uma história mal contada… Ainda bem que a minha desafetada vizinha se mudou. Fiquei livre do tal segredo alhures!

    Curtir

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

Descubra mais sobre Pausa4fun

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo