Amélie Poulain, o altruísmo, a bondade e o amor em sentido amplo

imagem2

 

Eu sei. Ninguém se lembra mais. Páscoa é sinônimo de feriadão, bacalhoada e chocolate! E assim como esta e outras datas perderam seu real significado, nós também nos esquecemos do que importa de verdade. Convido vocês a lerem um texto  delicioso e sensível, de mais um convidado do blog: Sergio Machado. Um convite aos nossos olhos (assistam o filme!) e aos nossos corações. Beijos e Feliz Páscoa!

Amélie Poulain, o Altruísmo, a Bondade e o Amor em Sentido Amplo

Nesses últimos dias revi com meu filho de treze anos o clássico contemporâneo francês “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” do diretor Jean-Pierre Jeunet.
Eu queria mostrar ao meu filho que existe vida cinematográfica além das fronteiras de Hollywood, e que as temáticas são bastante distintas entre o cinema europeu e o estadunidense. Bem, em primeiro lugar, Amélie Poulain não carrega armas, não dispara um tiro. Não faz da bala um instrumento de mudança de realidades. Ao invés disso, usa o carinho, altruísmo e seu senso de amor ao próximo como as verdadeiras armas que mudam o mundo.
Meu filho reagiu bem ao perceber que a senhorita Poulain pratica vários atos de trolling, sem causar malefícios a quem quer que seja. Bem, o dono da banca de frutas pode ser uma exceção, mas Amélie além de altruísta é justa e não hesita em buscar a regeneração de seres pouco afeitos ao bem.
Enquanto eu assistia e me divertia e derramava lágrimas pela percepção do bem pelo bem, eu me lembrava de um amigo que um dia havia me dito: “Se ao menos tivéssemos mais uns mil filmes como esse, teríamos um cinema mundial bem melhor…”. “Sim, com certeza, meu amigo Fausto”, pensei eu no silêncio de meus botões.
Eu estava ali, tentando imaginar quantas pessoas conheço que estão verdadeiramente preocupadas com o próximo, com aquele a quem chamam de amigo ou amiga, com um ato cometido em favor de alguém, única e exclusivamente para saciar um elemento volitivo que clama pelo bem. Lamentei por minha contagem não chegar até o dedão de uma mão, ao mesmo tempo em que respirava aliviado por meu companheiro de sessão estar em um dos dedos.
Basicamente, o que mais existe no mundo são o ego e seu dono, o egoísta que muitas vezes está bem próximo. O egocentrismo infelizmente dá o tom… Não tenho certeza de que uma xícara de açúcar ainda seja pedida “emprestada” ao vizinho. Tenho a impressão que se eu tocar a campainha da casa do meu vizinho por um pouco de açúcar, ele não vai me atender, talvez por estar postando no Facebook, seu novo refúgio de si e de sua responsabilidade de ser um ser humano de carne e osso. Se não sou humano de carne e osso, passo bem na respiração artificial do mundo cibernético.
Imaginei quantos não estão nos dias de hoje pensando algo do tipo: “Isso não me diz respeito, não está no meu nome, não está no meu endereço…”. Entendo que possamos e tenhamos o direito de dedicarmos tempo a nós mesmos, mas há muitas pessoas tristes com um smartphone 4G que não toca, ninguém faz um telefonema. Então se sentam em algum local público para tomar um café, e solitárias informam onde estão, tiram uma foto da xícara de café, fazem uma selfie e postam tudo na rede… É triste.
Alegre e feliz é Amélie, que lida com gente, que faz pelo próximo apenas pelo prazer que o “bem do outro” pode trazer a quem o pratica.
A tecnologia nos esfria como humanos. De certa forma, nos transforma em legumes, mas como diz Amélie ao fruteiro: “E você nem legume é, porque até as alcachofras tem coração.”.
Robóticamente vemos famílias compostas por um casal e dois filhos adolescentes, sem ao menos se entreolharem pelo fato de estarem ocupados com seus tablets e smartphones. Chegam até mesmo a conversar… Ora vejam só! Mas sem que um olhe para o outro…
Quem dera pudéssemos lançar um olhar a uma pessoa amiga, imaginar algo que o ou a fizesse feliz e praticar o ato, mas parece que perdemos algo que talvez nem ao menos tenhamos tido… Importar-se com o outro sem dele nada querer, requer amor, mas amor nos dias de cólera que vivemos requer a ousadia de se fazer algo positivo. O amor requer amor, e amor é algo que nem sempre sabemos o que é ou de onde vem. Se fazemos algo de bom ao próximo, entendemos que estamos ousando a não nos importarmos conosco… Quão longe conseguiremos caminhar ao lado de um ego inflado? Um dia o ego se torna um peso impossível de ser puxado pela mão.
Como dizia a minha saudosa e sábia mãe: “Meu filho, nunca se esqueça de fazer o bem sem ver a quem.”
E após tantos pensamentos sob o olhar atento dos grandes olhos de Amélie, o filme chegou ao fim, assim como vou parando por aqui até porque como um Dom Quixote às avessas, eu não tenho como “lutar contra a fábrica incansável de todas as misérias humanas.”.

segio2

Sergio Machado tem 49 anos, é casado com Elyete e pai de Giancarlo. Apaixonado pela família é também um roqueiro de carteirinha, amante da filosofia hippie, dos bons filmes e livros dos escritores ingleses pop, agitador cultural e criador do blog sobre música Sunrisers, os Roqueiros do Amanhecer  (http://sunrisersroqueirosdoamanhacer.blogspot.com.br/).

 


Descubra mais sobre Pausa4fun

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

Descubra mais sobre Pausa4fun

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo