E narciso continua a achar feio o que não é espelho.

 

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Por razões muito pessoais, tenho me mantido à parte das discussões políticas neste momento pré-eleição. Eu sou da geração das Diretas-já (não votava, tinha 13 ou 14 anos e morria de encantamento com meu ídolo Chico Buarque sobre os palanques). Quando finalmente pude votar, sofri minha primeira grande frustração: Collor foi eleito.

Mais tarde, pude exorcizar o demônio Collorido como uma orgulhosa cara-pintada. De lá para cá, venho exercendo meu direito/ dever, às vezes apaixonadamente, outras nem tanto, como agora.

Não se trata de decepção ou descrença. Políticos nunca foram confiáveis, promessas de campanha nunca foram cumpridas, e, como dizia um político bastante renomado em São Paulo: não existem virgens no puteiro.

O que me cansa mesmo é que, apesar de tudo que conquistamos, continuamos a cultivar o velho e bom “complexo de vira-lata” , tão bem descrito por Nelson Rodrigues. Continuamos a achar que a grama do vizinho é mais verde que a nossa e que eles nunca, jamais, em tempo algum, sofreram com a corrupção, os serviços públicos e quem sabe econômicos. Geração após geração, não conseguimos superar o fato de que estamos séculos atrás de alguns países e que sempre vamos estar.

Há pouco mais de um ano, o Brasil foi tomado por manifestações nas ruas, num movimento desgovernado e festejado por todos como se um gigante estivesse acordando de um sono profundo. Na época, antes que as manifestações se transformassem em baderna e num horror sem fim, eu me perguntava: Mas, afinal, o que eles querem?

Eles não sabiam. O que começou com a utopia do passe livre se transformou em desejos de mais saúde, mais educação, mais, mais, mais. Os caras-pintadas-pós-modernos eram filhos daqueles que, no passado, acreditavam que se você nasce pobre, vai morrer pobre. Esta geração aprendeu que pode mais (porque estudaram mais que os seus pais) e quando se pode mais, se quer mais.

Infelizmente, os baderneiros, aliados a um efeito perverso, capaz de destruir qualquer sonho, pulverizaram as manifestações e as transformaram em apenas uma lembrança e um mau exemplo da falta de controle. Sobrou na nossa memória a face bandida dos “Black Blocs” , o patrimônio público sendo depredado e as horas intermináveis de trânsito. Ah, o efeito perverso a que me refiro foi a crise, o desemprego e principalmente o medo (que é o paralisante mais eficaz que existe).

Logo depois, nossa autoestima (uma anã, a coitadinha) foi destroçada e humilhada com a derrota da nossa seleção, naquele pesadelo sem fim dos 7×1.

Impossível não voltar a Nelson Rodrigues: acho que nem ele seria capaz de criar um enredo onde o candidato obscuro e incipiente (me desculpem por isso, mas ele era quase um nanico na disputa) desaparece tragicamente, catapultando sua vice ao primeiro lugar nas pesquisas eleitorais. Marqueteiros de campanha, estrategistas, estão todos infartando aos montes. Ninguém faz a mínima ideia do que fazer.

E é aí que reside a minha total falta de paixão com este momento. Na verdade, minha paixão foi substituída pelo repúdio. Que espécie de ética é essa nossa, tão distorcida, que exige do outro o que não exigimos de nós mesmos?

Encontrei vários significados para a palavra “ética” , mas decidi transcrever da Wikipédia:

Na filosofia clássica, a ética não se resumia à moral (entendida como “costume” , ou “hábito” , do latim mos, mores), mas buscava a fundamentação teórica para encontrar o melhor modo de viver e conviver, isto é, a busca do melhor estilo de vida, tanto na vida privada quanto em público.

Ora, para se buscar uma convivência harmônica, tanto na sua vida privada, quanto na pública, é preciso abrir mão de si mesmo e enxergar o outro como um igual. Este não é um princípio civilizado? Não se trata de santidade, mas de respeito.

Tomem como exemplo a Marina Silva. Ela é, sem dúvida, a cara da pobreza: a voz sem energia, aquele rosto magro, quase desnutrido, o cabelo preso e as roupas que não negam sua religião. Logo que começou a subir nas pesquisas, me deparei com várias fotos da Marina Silva, ao lado de chimpanzés, do ET e nem sei mais o quê. O interessante é que as mesmas pessoas que postam as fotos, ou “curtem” , festejaram a punição dada ao Grêmio e à sua torcida pelo crime de racismo, cometido contra um jogador de futebol.

O crime só é crime quando outro comete. O racismo, idem.

Outro dia vi uma foto da Dilma pelada, abraçando o Lula (obviamente uma montagem), e não vou reescrever a legenda porque ela é quase impublicável — um ódio latente. Antes disso, ela foi vaiada nos estádios, para o mundo todo assistir ao desrespeito e à falta de educação em relação ao seu representante. Boa parte das pessoas achou justa a manifestação, mas não conseguem entender por que ainda somos um país em desenvolvimento.

Estranhamente, não consigo citar nenhum exemplo do Aécio (exceto algumas piadas sobre suas aplicações de Botox). Talvez seja porque ele é homem ou talvez porque ele seja bonitinho ou talvez porque ele tenha a cara e o nível da nossa classe média branca, com alta escolaridade, casa própria, cidadãos exemplares e autores destes ataques baixos e inócuos às candidatas que de fato estão na disputa. Aécio está paralisado, e não acho que seja por causa do Botox. Ele está vendo a banda passar e ainda não entendeu que música ela toca.

Ah, por favor! Baixem suas armas e parem de alardear e tirar da gaveta seus velhos discursos: fugir do Brasil, esconder o dinheiro, perder a propriedade privada, deixar o Brasil ser saqueado. Esse discurso não funcionou há 12 anos e não vai nem fazer cócegas no eleitor de hoje.

Está mais do que na hora de entendermos que esta polarização de décadas entre PT/ PSDB deixou de ser saudável há muito tempo. O eleitor médio parece ter entendido, e nós ainda estamos remoendo nossas mágoas, revirando o passado, querendo saber quem é o melhor (ou no caso, o pior).

Mão na consciência, senhoras e senhores! Vamos ao menos resgatar nossa dignidade e fazer o que deveríamos ter feito desde a primeira vez em que fomos contemplados com o direito de votar. Naquela época, nem tínhamos a tecnologia a nosso favor. Hoje, temos tudo à mão.

Todos os candidatos precisam registrar seus planos de governo. Já ouviram falar do aplicativo “Voto e Veto”? Se não conhecem, corram atrás.

Já escolheram seu candidato a deputado Estadual, Federal, Senador? Ou vamos pegar o velho e bom “santinho”  no dia do voto? Quem sabe pegar a via fácil e votar em uma legenda? Não conheço ninguém, nem uma só pessoa, que saiba em quem vai votar para o legislativo, aquele, que de fato vai influenciar diretamente nossas vidas.

Outro aplicativo bacana é o “Quem financia”. Alguma vez nós já nos interessamos em saber quais são as empresas, empresários e pessoas físicas que estão financiando os candidatos? Quem são os improváveis empresários e grandes empresas que, de uma hora para outra, resolveram financiar a campanha da Marina? E nós aqui, remoendo sobre o nosso humilde voto, sem nem perceber quem tem interesse no quê.

Não me surpreende que estes sejam os aplicativos mais baixados nas últimas semanas, e nós, os privilegiados, ainda estamos apavorados com os resultados das pesquisas, alimentando o medo insano que nos paralisa.

Não escolhi meu candidato, mas não abrirei mão disso. Até que aconteça, vou continuar minha pregação no deserto, por uma escolha racional, desapaixonada e ética, respeitando a única forma de governo em que acredito: a democracia. E se der a Dilma, se der a Marina ou o Aécio, eu vou aceitar e cobrar.

Assim como não tem virgem no puteiro, parece ter muito menos fora dele. Meu coração está calmo, porque acredito que temos cada vez mais poder sobre os governantes. E eles sabem disso.

 


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