
O que fazer quando o seu ficante decide dar um upgrade no relacionamento, alguns dias antes do Carnaval? Carnaval este, diga-se de passagem, que está todinho programado: abadás comprados, passagens aéreas confirmadas, hospedagem idem e uma meia dúzia de amigas prontas para o crime?
Pois aconteceu comigo, naquele Carnaval.
Apelei para a razão:
— Acho melhor a gente falar nisso depois do Carnaval. O que você acha?
O bonito, não contente com o ultimato fora de hora, respondeu assim:
— Tudo bem. Concordo. Mas então eu vou para o Carnaval da Bahia.
Naquele instante, a ameaça se configurou em motivo suficiente para cancelamento do evento programado há doze meses, pago com o dinheiro que eu não tinha. Perdi o rumo, a cor, a compostura:
— Não entendi. Você vai comigo para o Carnaval?
Ele só olhou. Continuei, desesperada, mas com cara de paisagem, do tipo ‘nem tô aí’:
— Acho que não dá mais… Os abadás já estão esgotados. Passagem aérea? Sem chance. Nem vale a pena perder muito tempo com isso, você não acha?
Ele sacou o telefone, fez umas ligações e anunciou:
— Consegui. Só que eu vou sair no bloco do Chiclete com Banana.
O sangue subiu. Senti minha face esquentar e a fumaça imaginária sair pelas orelhas. Que porra é essa? Eu saio no Asa. Eu sei o que acontece nos blocos. Eu sempre estou nos blocos. O que é que ele estava pensando? O ficante, que queria ser namorado, estava migrando rapidamente para ex-amigo, a categoria mais baixa na escala das paixões.
Dei de ombros. Tudo bem. Ele sai no Chiclete, eu no Asa e depois do Carnaval a gente se fala. Até parece…
(2 dias depois)
— Alô!’ — atendi.
— Oi! — a voz sofrida do outro lado da linha. — Tô no hospital.
— O que aconteceu?
— Apendicite aguda. Operação de emergência.
(Eu, na sala de espera do hospital, trocando mensagens com as amigas)
Amiga: “Acho que ele não vai poder viajar”
Eu: “Claro que não”
Amiga: “Você quer tentar vender seu abadá?”
Eu: “Por quê?”
Amiga: “Você não vai ficar com ele? Tá operado, coitado…”
Eu: “Melhor não. Ele precisa descansar, né?”
Amiga: “Não acredito em bruxas, mas que elas existem, isso ninguém pode negar.”
Eu: “Não entendi”
Amiga: “Claro que não foi sua culpa. Foi um incidente fora do controle.”
(Nós, quarto do hospital, depois da cirurgia)
— Tá doendo?
— Um pouco. Vou ter que ficar 15 dias de molho. Perguntei para o médico se eu poderia ir para Salvador.
Senti um frio na barriga. Não necessariamente de alegria.
— Perguntou se eu era louco. Tenho pontos na barriga…
— Que chato — Agora não é frio na barriga, são muitas borboletas voando.
— Acho que vamos começar a namorar mais cedo, né? — ele segurou minha mão.
— Melhor não. Você precisa descansar. Se eu ficar aqui, com certeza vou te atrapalhar. Sua saúde é mais importante.
(***)
Aquele foi meu Carnaval de despedida. Quando o avião pousou, ouvimos aquela música que diz assim?
“Ah, que bom você chegou, bem vindo a Salvador, coração do Brasil”.
Meu estado civil de solteira ficou por lá, terra maravilhosa, abençoada. Como todos os outros carnavais, aquele não foi melhor nem pior. Foi único.
O Carnaval é assim. Tem quem goste de descansar, tem os que desfilam em escolas de samba, tem até quem passe a noite assistindo aos desfiles na TV. É uma questão de gosto. No meu caso, eu tinha mesmo era loucura pelos trios. Tanta loucura que valia a pena arriscar o ficante, namorado, futuro marido.
Hoje meus carnavais têm matinês, churrasco com amigos, tudo coisa light. O ficante, como já disse, virou marido. Se eu tenho saudades daquela época? Um pouco, mas acredito que tudo tem seu tempo e meu passado foi ótimo, o presente também é.
Bom Carnaval para você, seja lá qual for a sua praia.
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