Autora exemplar

AUTORA EXEMPLAR
Imagem ‘inspirada’ na capa original do livro Garota Exemplar
“Eu era jornalista. Um jornalista que escrevia sobre TV, filmes e livros. Na época em que as pessoas liam coisas em papel, na época em que alguém se importava com o que eu pensava. Eu chegara a Nova York no final dos anos 90, último suspiro dos dias de glória, embora ninguém soubesse disso naquele tempo. Nova York estava abarrotada de jornalistas, jornalistas de verdade, porque havia revistas, revistas de verdade, muitas delas. Isso quando a internet ainda era um animalzinho exótico mantido na periferia do mundo editorial – jogue um biscoitinho para ele, veja como dança em sua coleirinha, ah, que bonitinho, ele decididamente não vai nos matar no meio da noite. Pense só nisto: uma época em que garotos recém-formados podiam ir para Nova York e ser pagos para escrever. Não tínhamos ideia de qye estávamos iniciando carreiras que desapareceriam em uma década. Eu tive um emprego durante onze anos, e então deixei de ter, rápido assim. Por todo país. Revistas começaram a fechar, sucumbindo a uma súbita infecção produzida pela economia detonada. Os jornalistas (meu tipo de jornalistas: aspirantes a romancistas, pensadores reflexivos, pessoas cujos cérebros não funcionam rápido o bastante para blogar, linkar, tuitar, basicamente falastrões velhos e teimosos) já eram.  Assim como chapeleiros femininos ou fabricantes de chibatas, nosso tempo chegara ao fim.”
Trecho do livro Garota Exemplar, de Gillian Flyn

 

Não me pergunte o que eu achei do livro. Eu não li. Não consegui, fiquei congelada neste trecho, que me causou um mal estar danado.  Eu não era jornalista, mas trabalhava em uma grande editora, assim como aquela descrita pelo personagem: “uma editora de verdade, que fazia revistas de verdade”.  Passava meus dias com jornalistas, gente brilhante, pensadores. Eram tão inatingíveis, tão incríveis, que eu tinha muita vergonha de admitir que escrevia romances.

Garota exemplar foi publicado em 2012, ou seja, o personagem do livro relatava um movimento que tinha acontecido há mais de vinte anos nos Estados Unidos. Tragédia anunciada, certo? Só que não.

Nos corredores da editora onde eu trabalhava, demos o nome de Kodak(*) ao que estava prestes a acontecer conosco. E era mesmo conversa de corredor, porque algumas pessoas da alta direção tinham surtos de agressividade contra qualquer um que dissesse que o papel estava no fim.

Mas a verdade nua e crua era que a publicidade, que sempre sustentou as revistas, despencava, abruptamente, muito mais rápido que a circulação (que também estava em queda livre).  Consultorias, reestruturações, planos milagrosos, cortes na carne. Tudo foi feito, tentando ‘adaptar’ o modelo de negócios.

Mais ou menos assim: coloque um grande e pesado quadrado dentro de uma esfera leve, minúscula e saltitante. Não cabe, não encaixa, não vai.

Culpa de quem? Ah, qualquer um pode entrar na lista: leitores, governos, anunciantes, a crise da China. Só não dá para dizer que foi uma surpresa.

Assim como o personagem do livro, fui para a rua. Muitos foram antes de mim, muitos depois e muitos ainda irão.

Bem, o terremoto no mercado editorial não atingiu somente as editoras de jornais e revistas. As editoras de livros, como temos visto, estão na UTI, ou a caminho dela.  A queda da Cosac Naif foi amplamente divulgada e debatida, mas são dezenas de outras, menos conhecidas, pouco cultuadas, que estão fechando suas portas.

No mundo do Itunes, do Uber,  do Waze, assisto, sem um pingo de divertimento, às editoras se repetindo, esmurrando a ponta da faca, optando por saídas fáceis, temporárias, rumando para o fim do túnel, um daqueles sem saída.

O livro existe. O leitor existe. Mas o dinheiro não circula mais. Como num passe de mágica, em algum lugar entre o ponto de venda e o editor, o dinheiro desaparece.  Nem menciono o autor nesta equação, porque ele virou o zero à esquerda. Meu muro de lamentações é grande. Tenho um contrato com uma editora, mas não faço a mínima ideia de quando serei publicada.

Culpa de quem? Da Dilma, da Globo, da Guerra na Síria, do pessimismo generalizado.

A quem estamos enganando? O modelo está equivocado, ultrapassado, é vinil.

Apesar do cenário assustador, minhas convicções não foram vencidas: existem alternativas. Existem bons exemplos.

E é atrás deles que eu vou.

No mar de lama e desespero do mercado editorial (com raras exceções), acompanho com curiosidade e cautela as notícias de desbravadores que nadam contra a maré do pessimismo, que se arriscam, que inovam.

Escolhi meu lado. E você? A seguir, separei algumas matérias realmente inspiradoras sobre esta maravilhoso universo literário. Divirtam-se!

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