Os anos dourados

1985. O ano que não terminou.

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Não sei explicar muito bem, mas era diferente ter quinze anos em 1985. Não me refiro à questão tecnológica (não havia internet, celulares ou redes sociais) ou ao fato de que as músicas eram melhores e a moda horripilante.

O fato é que éramos mais maduros.

Eu, por exemplo,  já trabalhava, pagava meu curso noturno, comprava os discos das minhas bandas prediletas.  Era capaz de discutir política, filosofia e religião, com quem estivesse disposto a ouvir uma jovem de esquerda que aos 14 já tinha ido às manifestações das Diretas Já.  Além do Legião Urbana e da Madonna, Chico Buarque era meu ídolo. Eclética, eu sei.

O Amarildo tinha dezenove anos. Bem diferente de mim, não se interessava  por política, não tinha religião, adorava roupas de marca e era um sucesso tremendo com a mulherada.  O danado era bonito demais e adorava namorar.  Tudo bem, a questão da maturidade foi mal colocada.

Morávamos praticamente na mesma rua, mas não nos conhecíamos.

Um belo dia, eu e meus amigos estávamos às voltas de um grande problema que nos consumia: como ir ao Perdidos na noite, o programa de tevê mais bacana daquela época (acredite se quiser, o Fausto Silva já foi cool). Eu tinha conseguido os convites para o show, mas não tínhamos carona ( em 1985, não existia Uber e nem tínhamos dinheiro para pagar um taxi; ônibus não era uma opção, não me lembro por quê).

FAUSTÃO
Crédito: Band/Divulgação. Imagem do apresentador Fausto Silva durante o programa Perdidos na Noite.

Um dos meus amigos se lembrou do único cara que ele conhecia e que tinha a carteira de motorista, já que o carro, minha mãe gentilmente emprestou.

Naquela noite, a bordo do Chevette vinho da Dona Neuza, lotado de moleques, nosso flerte começou.

Não dava para negar que o Dom Juan era bem bonitinho, mas o jeitinho de conquistador barato era ao mesmo tempo irritante e desafiador.  E eu, teimosa e arrogante, achando que entendia de amor tanto quanto entendia de política, decidi que o conquistador merecia uma lição: ele seria conquistado.

Dito isso, encerramos a noite com nosso primeiro beijo.

#TavaFeitaaDisgraça.

O cara era um namorador compulsivo – não se contentava em ter só uma namorada – e eu era uma moderninha de meia pataca, que dava voltas e mais voltas, para terminar minhas noites nos braços dele.

Bastava a gente se encontrar, por acaso ou de propósito, que a faísca acendia e a coisa pegava fogo.

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Aquele beijo foi só o começo.

Foram anos apaixonados e apaixonantes. Cheios de drama, de términos irreversíveis e reconciliações.

Mudei de emprego, ele também. Entrei na faculdade, não queria mais saber de namoro  sério (afinal eu era de esquerda, lembra?).  Nossos signos eram incompatíveis: Áries e Câncer não foram feitos um para o outro, todo mundo sabe disso. Em comum mesmo, só o amor pelo Corinthians.

Em 1989, terminamos “de verdade” o namoro. Quase um ano separados, outros namorados, outras histórias. Mas Paula Toller insistia em cantar:

“Depois de você, os outros são os outros e só.”

E assim, oito anos depois daquele primeiro beijo  entrávamos na igreja, para o nosso primeiro casamento.

E fomos felizes para sempre. #SQN

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Oi? Eu disse primeiro casamento?

Ah, tá. Essa é uma outra história. Que conto no post Os anos de chumbo

 

 

 


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