Os anos rebeldes

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Se eu disser que não sofri, estaria mentindo. Se disser que foi por muito tempo, também. A parte mais difícil não foi a separação, mas os meses que a antecederam, quando tentávamos nos agarrar a algo que não existia mais, quando queríamos que nosso casamento, nossa história não acabasse daquele jeito.  O fim é mesmo uma merda.

Fiquei com o apartamento (e o financiamento), meu carro e o telefone fixo. O Amarildo ficou com seu super carro da época, um telefone celular, a coleção de cd´s do Legião Urbana e foi morar com o irmão, que também estava se divorciando na época.

No momento em que ele cruzou a porta, comecei a juntar os cacos. A dor foi cedendo espaço para o orgulho ferido, para a sensação de fracasso e tudo isso se transformou em raiva. Só te digo uma coisa: não é ruim ter raiva. É melhor do que auto piedade.

À minha volta, uma rede de proteção e acolhimento foi formada pela minha família e meus amigos, que não me deram trégua.  No primeiro final de semana, já oficialmente solteira, meu apartamento foi invadido por ferramentas, latas de tinta e muita música. Era minha turma, promovendo o descarrego, mudando as cores das paredes, a disposição dos móveis, consertando os fios desencapados.

Minha manicure se recusou a pintar minhas unhas com a mesma cor.  O esmalte clarinho, bege e sem graça, foi substituído por cores mais fortes.

FOTO RASGADAUm mês depois, chegou o Carnaval: #TavaFeitaaDisgraça

Eu namorava desde os  quinze anos.  Aos vinte e sete, era uma mulher feita, independente, muito jovem e que nunca vivera sozinha. Foi como reaprender a andar.

Para piorar a situação (ou melhorar, dependendo do ponto de vista), o Amarildo conta que se arrependeu assim que dobrou a esquina de casa. É claro que ele não disse isso com todas essas letras naquela época. Mas não precisava. Eu sabia.

A decoração da casa, as unhas coloridas, um novo corte de cabelo. As mudanças começaram pela superfície, mas foram gradativamente atravessando a pele, os ossos, o sangue e o coração.

Agradeço todos os dias o fato de que não existiam as redes sociais naquela época. Fui uma solteira muito atrapalhada e protagonizei histórias hilárias naquele tempo.

Enfim, meses se passaram e a intensidade daqueles sentimentos que misturavam dor, raiva e sede de vingança,  foram se dissipando.  Meu ex-marido vivia ao meu redor, querendo muito ser meu ex-marido-amigo, o que não deveria ser nenhum problema, porque de fato, ele sempre foi meu melhor amigo.  Mas tinha a tal da faísca, lembra? Aquela que pegava fogo desde que nos conhecemos….

Uma festa aqui, uma olhada acolá e vez ou outra uma recaída acontecia. Coisa rápida, eu não queria nada sério, com ninguém.

Digo sem nenhuma dúvida: eu me sentia muito feliz e segura, dona do meu nariz, do meu tempo e do meu dinheiro. Não me faltava nada.

Alguns carnavais em Salvador mais tarde, eu continuava a achar que a vida de solteira era a melhor coisa do mundo.  E tentava convencer o Amarildo dessa verdade óbvia: casar, nunca mais. Com ele, muito menos.

Quatro anos depois do adeus e  de vários encontros furtivos, ele resolveu me dar um ultimato: “Do jeito que tá, não dá”.

Coloquei em prática meus dons de negociação e fechamos um acordo: assumiríamos nosso romance moderno para o mundo, mas só depois do Carnaval. A essa altura, minha cara de pau não tinha mais limites.

E assim, na quarta feira de cinzas, os blocos se dispersaram, peguei o avião, voltei para São Paulo e me tornei oficialmente namorada do meu ex-marido.

Ninguém achava estranho estarmos juntos. Um sem o outro é que era esquisito. Mas o passado não estava completamente esquecido,  talvez isso nunca acontecesse, então vivíamos o presente, sem nenhum motivo para pensarmos nos futuro.

E, quem sabe, teríamos permanecido assim por muitos e muitos anos, não fosse a mão pesada do destino querendo impor sua vontade.

Mas aquela segunda-feira mudaria toda a nossa história.

Passamos o final de semana juntos, em  uma festa no sítio de uma amiga, provavelmente comemorando algum aniversário ou de repente era só mais um desculpa para toda a turma se reunir. No domingo voltamos para casa e estávamos tão cansados que o Amarildo acabou dormindo no meu apartamento, o que era incomum, porque nosso acordo não previa uma gaveta de roupas ou escova de dentes extra no banheiro. Na segunda feira ele acordou, foi para casa, tomou banho e foi trabalhar. Tudo isso sem saber que havia perdido seu irmão. A notícia só chegou na segunda à noite.

Neste ponto da história, preciso fazer uma ressalva. Sou uma contadora de histórias, reais ou fictícias (como as histórias dos meus livros). No caso das histórias reais, ou elas são sobre a minha vida ou sobre pessoas que me autorizaram a falar delas.  E mesmo considerando que este fato mudou toda minha vida, temos um acordo tácito de não falar sobre isso, tamanha a dor que ainda causa, mesmo depois de tanto tempo. Basta saber que o meu melhor amigo tinha perdido seu irmão, que na verdade sempre foi muito mais que isso: era o amigo, o pai, o companheiro, o norte.

Pausa para respirar.

O que eu queria para minha vida, era só um detalhe. Mesquinho, pequeno, insignificante, diante da dor daquela família. Toda morte causa dor. As mortes abruptas, inesperadas, causam mais ainda.

A partir daquele dia ganhei um hóspede.  Meu companheiro, há mais de quinze anos, precisava de abrigo, de consolo, do meu ombro. Eu não seria capaz de me olhar no espelho se negasse isso. Além do mais, ia ser por pouco tempo, certo?

Eu ainda não sabia, não queria e não poderia imaginar, mas ali começava meu segundo casamento.  Se eu acreditasse em sinais, diria que não havia maneira pior de começar ou recomeçar um casamento. Mas como vocês bem sabem, os sinais, por mais óbvios, sempre foram ignorados por nós.

E assim, depois de quatro anos rebeldes e independentes, estávamos novamente sob o mesmo teto.  Mas este é um assunto para o próximo capítulo: Os anos incríveis!

Até lá!


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2 comentários em “Os anos rebeldes

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