
Chico Buarque apareceu em minha vida no ano de 1977, quando meu pai chegou em casa com o LP Meus caros amigos. Eu tinha então seis anos e fiquei fascinada por aquele homem lindo, de olhos verdes, sorrindo para mim. Ali começava meu caso de amor.
Meu pai era fã declarado e tenho lembranças maravilhosas de nós dois, sentados na sala, ouvindo Chico na vitrola, discutindo seus versos, contando causos que líamos aqui e ali (não existia ainda a internet, nem redes sociais. Nossas fontes de informação eram jornais, livros e a TV).
E assim fui crescendo, consumindo música por música numa época em que, para minha sorte, Chico lançava um disco por ano.
Já adolescente e trabalhando, gastava meu rico dinheirinho em discos. Aguardava ansiosa pelos lançamentos noticiados na revista Bizz. Gostava de Rock, samba, MPB e Chico Buarque, que na minha cabeça não se enquadrava em nenhum estilo musical. Ainda acho isso. Chico é Chico.

Em 1988 fui assistir pela primeira vez a um show dele, a turnê do disco Francisco. Tenho péssima memória para muitas coisas, mas me lembro de tudo que se refere a este show. Na hora do bis, corri para a frente do palco e consegui ficar a poucos metros de Chico. Enquanto ele cantava, percebi seu olhar em minha direção e um sorriso de reconhecimento, depois um leve aceno, como se dissesse “oi, você vem sempre aqui?”
Sim, senhoras e senhores, Chico Buarque enquanto cantava “o meu pai era paulista, meu avô, pernambucano, o meu bisavô mineiro, meu tataravô baiano”, lançava olhares e sorrisos PARA MIM! A música não era essa, mas isso pouco importa. Era um sonho jamais confessado, se realizando naquele momento, que parecia ser o mais feliz da minha vida até então. De alguma forma todas aquelas horas dedicadas a ouvir seus discos estavam sendo recompensadas. E continuamos assim, nos olhando, quando nossa conexão foi quebrada por um empurrão, provavelmente de alguma fã invejosa que notou meu triunfo. Mas os empurrões eram insistentes e fui obrigada a olhar para trás e dar de cara com um peito forte, másculo, de um certo jogador de futebol, muito famoso na época, o Raí.
Sim, caros amigos, Chico não estava olhando para mim, mas para o moço em questão. Frustrante, é verdade, mas tive meu momento de glória.
A partir dali fui a todos os shows e me acostumei ao fato de que existem fãs mais fãs que eu. Muito mais velhos ou muito mais novos. Homens, mulheres, LGBTQI+, todos devidamente loucos por ele. Não estou brincando, basta ir a um show do Chico e vocês saberão que falo a verdade, nada mais que a verdade.
E quem gosta, como eu, adora todos os Chicos: o letrista, o músico, o escritor, o cantor. Quem gosta, sente ciúmes da Marieta, se rasga de inveja só de pensar que ele fez música para seu novo amor, quer ser uma calçada no Rio só para ser pisada por ele em suas caminhadas matinais.
Quer me conquistar? Me canta um Chico. Meu marido, em nosso terceiro casamento, leu “Dueto” na hora de renovar os votos. Quando chegou a minha vez, tinha um trechinho no meu discurso, declarando nosso amor por Chico.
Passei dos 50. Sou uma mulher madura, mãe, casada, bonita e cansada.
Vamos combinar que 2022 “não está sendo fácil”. A gente está juntando os cacos pós pandemia, lidando com um mundo virado do avesso, enfrentando recessão, inflação, desemprego e de repente, não mais que de repente, lá vem o Chico com um samba. Um samba não, “o” samba. Do tipo que mexe com a gente, que cura ressaca, faz esquecer o preço da gasolina e até o desgraçado que mora no planalto. Melhor definição deste samba foi dada por uma amiga: melhor que remédio para dor.
Mas se Chico soubesse como gosto das suas cheganças, ele chegaria correndo todo dia.
Obrigada, Chico. Deus lhe pague pela Sua Cantiga, que ameniza a dor do nosso Cotidiano. Te amo, Meu caro amigo, Com açúcar e com afeto, porque você sempre me lembra que Vai passar.
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