Algumas histórias, quando ficam no passado — e principalmente quando não acabam em tragédia — podem até ser engraçadas. É tragicomédia que chama, né?
Pois bem. Estávamos de volta a mais uma inesperada internação. Eu e meu pai. Meu pai e eu.
O lado bom do Alzheimer, se é que existe algum, é o esquecimento. Meu pai esquece. Eu não.
Quando nem o marketing dá conta
Ficamos alguns dias na enfermaria de um dos hospitais do tal Convênio-que-não-deve-ser-nomeado. Hospital enorme, instalações antigas, totalmente esquecido pelo pessoal do marketing.
Tão esquecido que, mesmo com nome de país europeu, continua a ser conhecido pelo nome do bairro onde fica.
Mas, como se diz no jargão corporativo: ‘whatever’ (que seja!).
No texto anterior, eu disse que não adianta ter ambiente instagramável e pão de queijo de grife se o atendimento for péssimo, não disse?
Pois bem. Eu gostaria de dizer que, apesar do tal hospital ter sido esquecido pelos magos do marketing, os serviços eram bons. Gostaria, mas não posso.
Nem vou falar do elevador quebrado, das poltronas afundando, da falta de tomadas ou da luz que acaba de tempos em tempos. Porque se o atendimento fosse bom… a gente até relevava.
Digo ‘a gente’ porque, com o passar dos dias, uma rede de comunicação secreta se estabelece entre pacientes, acompanhantes e enfermeiros. Não é grupo de WhatsApp: é troca de olhares, caretas, sussurros e alguns surtos. O objetivo? Falar mal do convênio.
— O médico queria dar alta pro seu Antonio, do 402. A filha dele não deixou. Disse que não concordava, que o pai dela claramente não estava bem. Ela ameaçou falar com a ouvidoria.
— E aí?
— Teve alta mesmo assim.
Bate-volta… só que não
O quadro do meu pai se complicou — por negligência (mas não vou tratar disso aqui).
O atendimento foi dado ali mesmo, mas os médicos explicaram que ele precisaria passar por um procedimento em outro hospital, pois ali não tinham os recursos necessários.
Coisa simples e rápida, garantiram.
O plano era cirúrgico (me perdoem o trocadilho): jejum de 12h, ambulância às 19h, cirurgia às 21h, retorno às 23h. Tudo isso com acompanhante — no caso, euzinha.
A primeira parte deu certo. Às 19h40 estávamos na sala de preparo do outro hospital — especializado só em cirurgias rápidas, que não necessitam de internação.
A sala, no subsolo, tinha diversas macas separadas por divisórias, cada paciente monitorado no pré-operatório. Não sou boa de conta, mas devia haver entre 20 e 30 pacientes aguardando.
Às 20h30, o cirurgião me explicou o que seria feito, bibibi, bobobó. Em seguida, chegou o simpático anestesista.
— Demora muito?
— Já viu troca de pneu na Fórmula 1? É mais ou menos isso. Rápido, sem cortes. Em menos de uma hora seu pai tá de volta.
Depois do conversê, chegou a hora de assinar os famigerados termos de responsabilidade. Aqueles em que você se responsabiliza por tudo aquilo que o hospital não vai se responsabilizar. E depois você assina mais outros, reforçando que realmente não vai mesmo se responsabilizar. Nessa hora, você assina, né? Vai criar caso?
Só mais um minutinho.
Tudo certo. Só esperar chamar.
Ficamos ali, isolados numa sala congelante, bem debaixo do ar-condicionado central (nem vou mencionar que meu pai tinha sido internado por conta de uma pneumonia, tá?).
Às 22h, os primeiros pacientes começaram a subir. Convenhamos, uma horinha de atraso não mata ninguém — a não ser que você esteja em jejum desde as 9h da manhã e tenha 82 anos de idade.
— Quando meu pai vai subir?
— Ah, conforme as salas forem liberadas. É tipo linha de produção, sabe? Daqui a pouquinho a gente chama.
Lá pelas quatro da manhã, peguei no sono, em pé, curvada sobre a maca.
Às seis, acordei com a enfermeira:
— Armando Lopes, 82 anos. Procedimento agendado para 16h de hoje.
— Oi?!
Era isso. Seguimos esquecidos na salinha congelante. Sem cobertor. Sem água. Sem comida. Sem café. Sem xixi (um paciente com Alzheimer, agitado, não pode ser deixado sozinho. Se isso acontece, ele sai, vai dar um rolê).
💡 Expectativa: quatro horas entre ida, cirurgia e volta.
X
💀 Realidade: doze horas depois, nem na sala de cirurgia a gente tinha entrado.
É claro que rolou barraco, correria, choro e ranger de dentes. Adiantou? Não.
Às 15h meu pai finalmente subiu para o centro cirúrgico. Fui liberada daquela sala branca, fria e estéril. Saí pra caçar um lanche (o conceito de hospital-dia não contempla espaço pra lanchonete, restaurante ou pão de queijo de grife).
Pensa numa ideia de jerico… (ou jirico, se preferir)
Voltei e fiquei aguardando na recepção.
E, de novo, me perguntei: quem, pelo amor de Deus, aprovou o conceito de “espera humanizada com entretenimento e ostentação”?
É tudo uma questão de gosto, eu sei.
Ao contrário daquele ambiente colorido e moderno, estilo Google, esta recepção está mais para uma estética Odete Roitman encontra novela das oito dos anos 90: madeira envernizada, frisos dourados, vasos gigantes, plantas, piso marmorizado, tudo brilhando.
Como o hospital tem nome de país asiático, talvez essa fosse a inspiração.
Mas o melhor, o ápice, está por vir.
Posicionado de forma estratégica, visível tanto da recepção quanto do mezanino (que parecia um camarote de casa de show), havia um piano de cauda branco.
Sim. Um piano. De cauda. Branco. E um pianista, vestido a rigor, tocando. Sem parar. Tocando. Tocando. Tocando.
Ninguém ali no saguão saberia dizer se ele tocava bem ou não.
Só de olhar, eu já saquei: o perfil dos acompanhantes era mais pagode do que música clássica.
— Pelo amor de Deus, alguém desliga esse pianista! Essa música não tá me relaxando. Tá me irritando! — disse um rapaz ao meu lado, nervoso, prestes a puxar o fio da tomada do piano, se houvesse.
Tudo fica bem quando acaba bem. Será?
Lá pelas 17h, a recepcionista — de pé (porque também deram fim às mesas) — atendeu o telefone e anunciou:
— Acompanhante de Armando Lopes!
Corri. Peguei o telefone.
Do outro lado, o médico:
— O procedimento foi um sucesso. Sem intercorrências. Rápido, como previsto.
Desliguei o telefone, olhei pro lobby, pro piano, pro relógio.
Vinte e oito horas depois, exausta e me sentindo parte da mobília, respirei aliviada.
Já não lembrava mais da fome, do frio ou do cansaço. Nem tinha forças para sentir raiva, indignação, revolta.
Ele estava bem.
Em breve estaríamos de volta à enfermaria, e eu poderia dormir algumas horas na poltrona quebrada.
O paraíso, enfim.
[não pense que acabou. A coleção de histórias não tem fim. Se vc gostou, comenta, compartilha, se inscreve no blog. A gente nunca sabe onde essas histórias vão parar. Beijos e até a próxima!]
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