O meu dia “D”

Segunda feira – 02/09

Não posso dizer que foi exatamente uma manhã de segunda feira como todas as outras. Um bip no meu celular, bem cedo, chamou minha atenção: “Horóscopo do dia”.

Com saudades da minha revista Lola, resolvi baixar o aplicativo da super astróloga Susan Miller. Nem sou tão ligada nas previsões dos astros, mas eu tenho que confessar que não deixava de ler o que Susan tinha para mim. E meu horóscopo era muito promissor nesta data: uma avalanche de novos projetos iria desabar sobre minha mesa, grandes desafios neste dia, Plutão está na casa tal e isso não acontece há muitos anos e mudanças importantes vão acontecer. Uau!

E assim minha manhã passou, com aquela lista infinita de e-mails para abrir, prazos para cumprir, aprovações, telefone tocando sem parar. Uma típica manhã, de fato.

Durante o almoço, aquela estranha convocação para uma reunião rápida, individual, com meu chefe. PQP, o meu horóscopo! Será que eu devia ler de novo ou pagar o extra do aplicativo para ter mais informações?

E na hora marcada, aqueles olhos azuis estavam à minha espera. E eu encarei aquele olhar, tentando buscar ali forças para ouvir e para ser firme. Mas que porra! Eu não ouvia nadinha de nada! Compreendi o recado, mas eu não ouvia de verdade o que estava sendo dito. O caos se instalou na minha mente e vários acordes, ops, pensamentos, dissonantes poderiam ser ouvidos:

  • Notei que o dono dos olhos azuis estava muito pálido. Será que ele está passando bem? Que situação difícil a dele… Devo oferecer ajuda, conforto, um copo d´água, talvez?
  • Lembrei que depois de mim, outras pessoas estavam sendo chamadas e se eu as encontrasse elas me perguntariam sobre o que era a tal reunião. Eu não queria falar com ninguém, então fiquei traçando na minha cabeça o melhor caminho para o elevador, para o banheiro, para uma sala de reuniões vazia, tudo para evitar os tais encontros.
  • Decidi que faria o upgrade do meu aplicativo da Susan Miller, aquela danada…

Minha boca começou a tremer, o choro viria em seguida e eu então, com toda a minha altivez, profissionalismo e maturidade, disse adeus e saí da sala (me perguntando se eu tinha me comportado direitinho, tem algum manual de como se comportar quando se é demitido?).

O restante do dia passou num borrão, uma avalanche de emoções, de lágrimas, de choque, vividos obviamente na reclusão do meu lar.

Vamos assumir: é uma situaçãozinha de merda… Ninguém, ninguém mesmo quer passar por isso. Mas ela acontece o tempo todo (no meu caso, sempre aconteceu com a entidade denominada de “outros”).

E à noite, enquanto eu tentava dormir e não conseguia, a pergunta martelava nas têmporas: “como é que vai ser amanhã?”

E veio o day after. Estranhamente sem uma ressaca. E meu horário não era mais uma meta, certo? Então segui parte da rotina, mas fui caminhar. Nossa, há quanto tempo eu não estava planejando retornar à minhas caminhadas, mas nunca dava certo? Passei no mercado também, porque precisava comprar algumas coisas e eu não precisaria fazer isso só à noite, eu poderia fazer aquela hora. O fim de semana foi muito corrido e não deu para eu fazer as unhas… Passei no cabelereiro e na manicure. Depois fui trabalhar.

No caminho, parada no trânsito da marginal, me dei conta de que aquela lista infindável de coisas a fazer, não era mais minha. Eu poderia fazer agora a minha real lista de coisas para fazer. As minhas coisas. E essas coisas poderiam ser fúteis como fazer as unhas, importantes como ir ao médico ou engrandecedoras como colocar sonhos de pé.

Meus mais de 20 anos de vida corporativa, dentro da mesma empresa, foram vividos intensamente, com toda minha dedicação, com toda minha alma. Tenho certeza de que ninguém duvida disso, porque eu só sei fazer se for assim. Mas a expectativa do novo, a vontade de dar vazão aos meus impulsos criativos, de usar minha hiperatividade em coisas só para mim, me fizeram rejuvenescer nos últimos dias. Estou me sentindo uma menina de novo, cheia de vontades, cheia de ideias, ocupando minhas horas sonhando acordada.

Aos que me perguntam ou aos que não tem coragem de perguntar como eu estou, eu respondo que estou bem. E estar bem comigo mesma, significa que tenho o luto da separação para viver, tenho ainda muitas lágrimas para soltar e acima de tudo, tenho que sofrer de saudades antecipadas. E isso é a coisa mais natural do mundo, seria horrível se fosse diferente.

Mas estar bem comigo mesma é também viver este estado ambivalente, duplo, bipolar, porque eu estou muito, muito otimista. Livre, leve e solta. Pronta para me dedicar ao meu umbigo.

Eu sei que vou adorar.

Bem vindos ao meu post inaugural, ao meu blog em construção, à inauguração de uma nova etapa de vida.


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14 comentários em “O meu dia “D”

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  1. Olá, Amiga!
    Realmente uma mudança grande em sua vida.
    Embora pareça uma notícia triste, com suas palavras, bem escritas por sinal, me deixam aliviado, pois percebo o qto está enfrentando isso com muito otimismo e aproveitando esse tempo pra fazer coisas com a qual não priorizamos.
    Também estou otimista por você, pois sei o quanto é competente… durma, curta seus filhos, sua casa, faça exercícios próximo a natureza, viva e seja feliz! Parabéns pelo blog….bjo

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  2. Te procurei o dia todo! Mas menina que mesa mais disputada a sua hein? E quando percebi, lá foi você hummmmm. Adorei o seu texto, com certeza esse é seu caminho! Fico aqui chorando de saudades antecipadas, por saber que em breve nao ouvirei suas risadas contagiantes, e sua energia maravilhosa que faz bem pra tanta gente! Mas é assim! Quero só registrar que desejo muito muito sucesso sempre, pq é merecido! Beijos. Nao sei expressar pelas palavras como vc faz! Mas fico feliz em ter convivido perto de vc viu? Beijuuuuuuuuuuu

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  3. Déa, minha amiga querida!!!
    Desejo que suas conquistas por esse mundão a fora sejam maravilhosas!!! Boa sorte na nova caminhada e estou aqui para o que precisar… SAUDADE…
    Mesmo distante não tem como esquecer os nossos vários happys, amigos secretos e viagens…. isso ficará para sempre em minha memória… Gosto muito de vc!!!
    Seja feliz!! Bjus Camila

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  4. Queridíssima Dé, gostoso é poder olhar para vida e ver que colecionamos seguidores – para usar o termo de hoje. E o que a gente vê e lê são muito mais do que palavras repetidas dos cânticos decorados para momentos de renovação. São singelas expressões doces de quem espalhou doçura, alegria, amizade e bom humor. E o que é a boa vida se não uma coleção desarranjada desses ingredientes simples? O resto é resto. Renovar dói, seja com um empurrão da vida , seja num salto quase suicida em direção do desconhecido. Mas é uma viagem maravilhosa em direção a nós mesmos. Que você encontre você mesma, com os dons e talentos que emergirão nesse incrível redescobrimento. Seja muito feliz!

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  5. Quem diria que esse “Dia D” despertaria mais uma blogueira no pedaço. Incrível como você consegue transmitir leveza e descontração em suas palavras…está descobrindo um dom. Parabéns! Continuaremos colegas de trabalho rs! Quanto ao “Dia D”, pelo pouco que falamos, vi que você está bem, então é isso o que importa. Um ciclo se fechou. Missão cumprida, que venham as próximas! Grande beijo e sucesso com o blog 😉

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  6. Dea, querida….. fiquei muito surpresa com essa noticia, realmente, pois sempre conheci sua competencia e sua dedicaçao….. mas, pode ter certeza, que essa nova etapa, será maravilhosa para você! Aproveite, caminhe, vá ao shopping as 15:00, e faça coisas que nao estava imaginando fazer por agora!! Estou sempre aqui quando precisar!!! E, como sabe, no meu caso que já conquistei a um tempo, “em qualquer horario”… beijosss

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  7. Dea, que esse dia “D” não é mesmo o que ninguém gostaria de passar, é uma verdade, no entanto, de certa forma, ele nos traz liberdade. A partir dele a vida pode se renovar. E como você falou, agora você terá a sua lista. Adorei o post. E saiba que torço para que o teu futuro empreendimento seja aquilo que você desejou e que se torne a mais linda realidade em sua nova vida. Beijo grande!

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  8. Andrea, texto incrível, maravilhoso, muito bem escrito. Desejo sucesso nesta nova etapa de vida e tenho certeza que se sairá muito bem. O que precisar estamos aqui bem pertinho vizinha. Beijos

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  9. Adorei ler, Déa! Apesar do momento delicado, você é realmente uma graça e eu me diverti lendo seus depoimentos! Vou esperar o próximo capítulo! 🙂 Beijos!

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  10. O primeiro texto que li em 2014! Comecei bem! rs!! Seu texto possui várias cores! Acima de tudo, destaca o momento em um tom de humor bem ao sabor da sátira da dor ou momentos difíceis. É possível “assistir-se” uma cena toda, ou várias em separado! Incrível sua capacidade de deixar clara a desfeita para com a dor. A sátira dá o tom! A sátira é ácida, há todos os grandes da comédia (na minha realidade), de Woody Allen à Jerry Seinfeld, passando por Chris Rock. Saboroso! Um banquete!

    A primeira vez que leio um texto onde o termo “in denial”, da língua inglesa é utilizado (e muito bem utilizado) em língua portuguesa, daí a ausência do termo no Google … rs!!!

    Bjs,

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