Cedo ou tarde?

ImagemNos dias que se seguiram ao meu dia “D”, continuei  a comparecer ao meu ‘emprego’, linda no meu salto alto.  Foi então que conheci alguns personagens interessantíssimos desta cena corporativa.  (Não, eu não vou esquecer que vivi neste mundo quase toda a minha existência e  nele convivi com as demissões e as despedidas o tempo todo. A única diferença é que desta vez o meu papel foi outro, então, sim, devo ter sido, durante a minha trajetória, um dos personagens que vou descrever a seguir, provavelmente, mais de um. )

Eu estava ainda abalada, emocionalmente destruída. Construí um muro, cimentado com bastante maquiagem (um truque que a gente aprende com as noivas, madrinhas de casamento e mães neuróticas: não vá borrar a maquiagem, não existe nada pior!).  Sendo assim, se você está com tudo em cima, bem maquiada, você se segura, não chora, porque senão, a coisa fica feia!  Mas o que fazer quando, ao longo do caminho, você encontra pessoas que abrem os braços, vão pendendo a cabecinha para o lado, te lançam aquele olhar perdido, o peito arfando, como se estivessem vendo alguém que acaba de receber uma sentença de morte? Pois encontrei várias pessoas assim e minha reação foi péssima. Em alguns casos, desviei. Em outros, levantei a mão e afastei o olhar: “Estou ótima! Obrigada!”. Algumas poucas, consolei.

Teve também o grupo do contágio. Quando me viam, fugiam, desviavam o olhar, nunca mais me cumprimentaram, provavelmente porque a tal da demissão pega ou porque poderiam ser vistos falando comigo ou, no final das contas, não sabiam mesmo o que dizer numa hora destas.

O grupo da ignorância foi muito engraçado. Continuaram como se nada, absolutamente nada tivesse acontecido: “Vamos trabalhar pessoal!”  –  e continuaram mesmo a trabalhar comigo, até porque eu estava ali,  não é mesmo? Me convocaram para reuniões, me pediram aprovações, me cobraram algumas pendências… E mesmo quando eu dizia: “Ei, isso não me pertence mais, é melhor você falar com fulano ou ciclano,”, meia hora depois eles voltavam. Simplesmente não queriam registrar a mensagem. Na psicologia chamam isso de negação (não consultem isso no Google, porque eu acabei de inventar).

E é claro, tem aqueles que agem como os mais “normais”. Pelo menos é o que parece.

Eu tentei ser normal. Mas depois de alguns dias eu não me sentia mais “normal”.  Eu já não me sentia parte da mobília.  Percebia que as pessoas se perguntavam:  “Por que ela ainda está  aqui?” ou “Por que é que ela está rindo? “.

Nos primeiros dias, senti necessidade daquele carinho, de receber os elogios, de todo mundo me dizendo que eu sou demais.  Depois de um tempo, eu já fiquei de bode e me perguntava: “Então tá. Se eu sou tão boa assim, porque é que eu fui cortada?”.  A tal da gangorra, os altos e baixos.

E se uma hora eu estava rindo, na outra estava chorando oceanos de lágrimas ao escrever ou ler e-mails de despedida. Escrevi vários. Coletivos e individuais. Passei raiva lendo alguns também. Mas superei.

E ontem, quando fiz o exame médico, assinei os tais papéis, entreguei o meu crachá,  eu estava mais do que a fim de virar a página. Convicta de que o mundo só tem a ganhar comigo e eu com ele.  Certa de que nunca é cedo ou tarde para ir em frente. Isso não existe. Existe o momento certo. Este é o meu.


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10 comentários em “Cedo ou tarde?

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  1. Registro de memória no momento da passagem para a Datalistas: sua voz me dizendo que não se aposentadoria em seu novo posto. Folgo em ver que era um vaticício!

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  2. Adoro ler seus posts porque eu ouço sua voz na minha cabeça! Acho fenomenal entender que fases são terminadas para outras começarem. Olhar para trás é relembrar, olhar para frente é enfrentar desafios. Bora ver o que a vida te reserva! Mais coisas maravilhosas 🙂

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  3. Perfeito Dea!!! Um dia nos sentimos a peça principal, no outro, só mais um, mas como vc bem disse “este é o seu momento”, e com certeza será o melhor momento. Um dia, acontece com todo mundo, mas quem disse que nos preparamos pra isso??? Sorte sorte e sorte….bjks

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  4. Dé, sabe bem que passei por tudo isso há pouco tempo e te entendo muito bem… Rs…. Mas, fora o fato de que nao teremos salário (diga-se, por pouco tempo!), vc vai descobrir um monte de coisas pra fazer, pelos filhos, pela familia, pela casa, por vc! Aproveite e curta! Alem disso, está claro o dom que vc tem de escrever! Invista! estarei torcendo por você! Bjs

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  5. Também me senti assim quando sai da Abril em 2012. Mas acredite, há vida fora da árvore. Beijos e bola para frente, Alexandre Soares (Internet – Assinaturas)

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