O dia em que ‘peguei’ o avião errado.

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“Esta é a fila do vôo para São Paulo?”

Foi a partir desta pergunta e da resposta positiva de uma pessoa que estava na fila, que minha aventura começou.

Não, não seria justo começar daí. Como eu ouvi alguns minutos depois da moça da CVC: “Sei… você veio de caminhos errados e seguiu por eles…”, é melhor que eu dê um pano de fundo para minha história.

O ano era 1999. Essa pessoa que vos escreve, tinha na época 29 anos, solteirinha da Silva e louca por samba, cerveja e festa. Naquele ano, fui passar o carnaval em Arraial D´Ajuda, litoral sul da Bahia.

As coisas não mudaram tanto assim de lá pra cá: as passagens aéreas estavam caríssimas e mesmo assim eram raras as passagens disponíveis. Consegui então um pacote hiper barato pela CVC, com passagem aérea e hospedagem, só que o hotel era em Porto Seguro (não me pergunte qual era, porque nunca cheguei a saber de fato). Convidei duas amigas e lá fomos nós para cinco dias de…ah, vocês sabem do quê.

Assim que chegamos na cidade, fomos fazer nosso check-in no hotel. Na mesma noite, segui para Arraial D´Ajuda, o que não era uma tarefa das mais fáceis: táxi, balsa, táxi (tudo isso em plena sexta feira de carnaval). Mas cheguei. Cheguei e da lá só saí na terça feira, rumo aeroporto.

Não vou entrar em detalhes, mas durante aqueles dias, não voltei mais ao hotel. Minha bagagem ficou por lá e minhas duas amigas contribuíam me trazendo uma troca de roupa aqui, outra ali. Fiquei no Arraial hospedada na casa de amigos e vamos combinar: uma garota precisa de muito pouco nesta fase da vida: protetor solar e escova de dentes. É uma vida perfeita.

O que eu sei é que o negócio estava tão bom, que eu não queria perder nenhum minuto.

“Amigas queridas, nos encontramos no aeroporto, tá bom? Vocês levam a minha bagagem? Vou trocar de roupa lá.”

Combinado não sai caro, nós só queríamos nos divertir (quase não nos vimos durante o carnaval) e não era trabalho nenhum, era só pegar a mochila e pronto. É preciso lembrar que não tínhamos celular na época (sei que é incrível, mas houve um tempo em que a vida era assim e nós existíamos sem celulares, Instagram, Facebook).

Tudo seria tranquilo, não fosse o fato de que eu me atrasei um pouquinho… Sabe aquela atrasadinha? Mas eu sabia que daria tempo, porque já naquela época eu era uma das pessoas mais otimistas que eu conheço.

Cheguei desesperada ao aeroporto. Pausa para o modelito:

  • Minha roupa de baixo era um biquíni. É claro que era. Eu estava chegando da praia, ora bolas!
  • uma regatinha (para cobrir o biquíni, certo?);
  • uma saia jeans, curtinha, toda desfiada (eu adorava aquela saia);
  • óculos escuros (garota de praia que se preze, não vive sem eles);
  • bolsa de praia contendo: protetor solar, escova de dentes, dinheiro e a canga, claro, não podia faltar a canga,
  • chinelinho Havaianas (já naquela época elas eram um hit!)

Perceberam que quase todo os itens terminam com “inho”? É. Tudo estava mesmo no diminutivo (até eu era bem menor, devo dizer).

Alguém conheceu o aeroporto de Porto Seguro, há pelo menos dez anos atrás? É importante descrevê-lo também, para que meu relato tenha algum crédito: esqueça os painéis eletrônicos informando a saída dos vôos. Esqueça os guichês para emissão do cartão de embarque (cartão de embarque? kkkk), aliás, naquela hora não havia nenhum guichê aberto.  Pense numa rodoviária, de uma cidade do interior, bem pequena. Pensou? Agora pense em alguma coisa menor ainda. É provável que você se aproxime do que era este aeroporto.

Foi então que eu vi a fila. A única fila de embarque e como eu estava atrasada, corri para lá e fiz a tal pergunta:

  • Esta é a fila do voo para São Paulo?

Gente, não é brincadeira. Eu sou normal. Não posso ver uma fila que já quero ficar. E só havia uma…

Olhei rapidamente para ver se encontrava minhas amigas, mas como eu estava atrasada, achei natural que elas já tivessem embarcado. Mentira. Xinguei bastante, porque elas poderiam ter me esperado um pouco mais e eu estava, afinal, sem nenhum documento, sem as passagens, sem a vestimenta adequada para viajar. Mas enfim, nós iríamos discutir sobre isso mais tarde. O importante era que eu embarcasse.

Quando alguém me pergunta o que aconteceu quando me pediram as passagens, meu documento de identificação, eu entro em parafuso.  Este momento não existiu. Nem me lembro se havia uma pessoa pedindo isso e nem sei se achei estranho. Eu queria entrar no avião.

E aí é que a coisa pegou. Eu entrei no avião. Entrei e tive que me sentar rapidamente, porque era um avião pequeno e as últimas pessoas, assim como eu precisavam se acomodar. Aparentemente não havia lugar marcado. Fiquei ao lado de dois rapazes, que usavam uma daquelas perucas que vem com a touca (aquela com as cores de Jamaica e as trancinhas rastafari). Assim que me sentei, consegui alguns momentos para raciocinar. Seria muito bom dar um ‘olá’ para as meninas. Me levantei e dei um ‘rolezinho’ pelo avião. Era uma daquelas aeronaves pequenas, três lugares à esquerda, três à direita. Em poucos passos consegui visualizar todo mundo no avião. Meu coração disparou.

Aeronave fechada, motores ligados, a aeromoça começou a dar as instruções de segurança. Olhei pela janela e havia mais um único avião no aeroporto. Olhei para um dos rapazes e perguntei:

  • Esse voo vai para São Paulo?

Vocês tem noção de como essa pergunta é sem pé nem cabeça? Se tem, vocês podem imaginar a cara dos branquelos de cabelo rastafari. Eu jamais me esquecerei. Um deles conseguiu responder que sim, mas começou a me olhar de um jeito estranho e eu comecei também a imaginar qual era minha aparência naquele momento.

Como se eu estivesse em uma sala de aula, levantei a mão e interrompi as instruções da aeromoça. Acho que na época elas ainda não eram ‘comissárias de bordo’ e essa em questão não deve ter continuado muito tempo na profissão, pois era muito mau humorada. Ela revirou os olhos, deu um suspiro, interrompeu sua fala e se aproximou:

  • Pois não?
  • Oi! Você pode vir aqui um momento?

Uma de suas sobrancelhas subiu, a boca ficou franzida e ela finalmente respondeu:

  • Sim.

Dei uma risadinha simpática, ajustei minha coluna para me deixar mais alta e disse:

  • Tudo bem?  Será que você pode me ajudar? Eu vou para São Paulo, mas acho que estou no voo errado, porque eu deveria encontrar com minhas amigas aqui, mas elas não estão…

Os olhinhos dela praticamente saíram das órbitas.

  • Seu cartão de embarque, por favor?
  • Pois é. Eu não tenho, deve estas com elas…

Momento do suspiro novamente. A aeronave toda olhando para o meu lugar (não sei se eles me viam, mas as pessoas próximas faziam cara de espanto).

  • Vamos ver se suas amigas estão aqui.

Já assistiram a algum filme em que a testemunha tem que reconhecer o assassino que esta dentro do avião? Pois é. Fui para a frente do corredor e, acompanhada da aeromoça, inspecionei assento por assento em busca das tais amigas (a esta altura todos achavam que elas eram imaginárias).

  • Não. Como eu havia dito, elas não estão aqui. – eu já estava um pouco irritada, um pouco nervosa, um pouco louca.

Toc. Toc. Cabine do piloto.

  • Senhor, temos um problema. (não esqueçam que o avião continuava ligado).

Repetimos o diálogo incoerente, só que agora ele queria saber como eu tinha entrado no avião. Bem, eu estava lá, não estava?

  • Atenção torre, XXXXX (acho que era o código do avião) solicitando autorização para desembarque de passageiro.
  • XXXXXX, desembarque autorizado. – a voz metálica respondeu.

O avião foi desligado. Vaias e assovios dos passageiros. Em alguns minutos, vi chegando pela janelinha do avião, um carrinho, do tipo daqueles carrinhos de golfe, vindo em direção à aeronave.

  • Portas destravadas. Passageiro pronto para desembarque.

Se eu achava que estava em apuros? O pesadelo só estava começando…

Não havia lista de passageiros para os vôos fretados e eu estava preocupada com questões práticas, como meus documentos, a chave do meu apartamento em São Paulo, a enorme diferença de temperatura entre as cidades (incompatível com minha atual vestimenta), trabalhar no dia seguinte. Por outro lado, os funcionários do aeroporto queriam descobrir em que hotel eu estava hospedada (eu não me lembrava), quem tinha sido responsável por me deixar passar (obviamente era homem e ele ficou hipnotizado pelas minhas pernas, eles não disseram, mas pensaram), e em como eles me expulsariam do aeroporto. Em questão de minutos, eu a alguns funcionários estávamos num bate boca danado e, apesar de eu parecer uma louca, meu poder de argumentação continuava perfeito. Não sei dizer quanto tempo fiquei ali, sendo interrogada feito uma terrorista (ah, em alguns momentos é preciso carregar na tinta, senão não tem graça, né?)

De repente, não mais que de repente, tenho uma visão salvadora. Lá longe, bem longe, na lanchonete, vejo duas garotas, dormindo sobre algumas malas, encostadas uma na outra. Minhas salvadoras!

Larguei tudo. Faltou só a trilha sonora, porque saí correndo ao encontro delas, gritando seus nomes, as lágrimas saindo sem controle. Foi lindo.

Bom, essa parte eu estou inventando um pouco, porque não foi tão lindo assim. Elas não faziam ideia do que eu tentava contar e do porque eu as abraçava e beijava tão intensamente. Elas estavam com sono, de ressaca e nosso voo ia atrasar mais umas duas horas. Imaginaram que eu soubesse disso e continuava na farra. Nem se preocuparam e não conseguiam entender meu desespero.

E, sem pensar nas possíveis consequências caso alguma coisa tivesse dado errado, só o que eu conseguia sentir era um tremendo alívio, afinal tudo fica bem, quando termina bem, não é mesmo?

Conto e reconto essa história, sempre lembrando de um detalhe ou outro, sempre engraçados e do gran- finale, quando embarquei, desta vez,  devidamente identificada e no voo certo: um paredão de funcionários do aeroporto se formou para minha passagem e cada um deles me perguntava: “fui eu quem deixou você passar?” –  e quando eu estava subindo as escadas do avião, o motorista do ‘carrinho de golfe’ buzinou e disse: “Você tem certeza que é o avião certo?”

Ah, vida louca, vida breve. O que seria de mim se eu não tivesse histórias pra contar.


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