Quem é solteiro e gosta dessa vida sabe que dá trabalho, exige muita disciplina e planejamento. Já fui solteira e aproveitei muito esta fase da minha vida, assim como aproveito todas as outras. Uma das regras da solteirice é escolher o momento certo para começar a namorar. A época do ano ideal é o inverno (por questões óbvias) e a menos recomendada é o verão. Antes do carnaval então? Nem pensar.
Quem, em sã consciência, vai abandonar momentos preciosos de samba, suor e cerveja para namorar? Namorar com uma só pessoa?
Pois não é que eu fiz isso uma vez? Comecei a namorar oficialmente dois meses antes do carnaval. Quero dizer, eu e mais uma pessoa tomamos essa decisão. Não me pergunte porquê. Por mais que o tempo tenha passado, ainda não encontro uma explicação para isso. Acho que foi aquela paixão de momento, aquele calor e aí a gente não sabia mais como voltar atrás, sei lá.
O grande problema era que eu já tinha comprado meu abadá para o carnaval de Salvador (para quem não sabe, você compra o abadá 12 meses antes do próximo carnaval, ou seja praticamente na quarta-feira de cinzas. É como um carnê do baú). As passagens estavam reservadas. Hospedagem garantida.
É, minha gente. Carnaval não é assim qualquer coisa não. Você precisa estar disponível e pronto para a festa, por pelo menos quatro dias. Aquele trio elétrico se preparou o ano todo para te receber e quando chega na hora você faz o quê? Pula fora? Não pode, né?
Eu que nunca fui de namorar moço bonzinho, arrumei um namorado que também ia para Salvador. Fiquei um pouco triste, porque infelizmente ele estaria no trio elétrico rival ao meu. Explico: quem sai no Asa de Águia não sai no Chiclete com Banana e vice versa. É uma rivalidade saudável, não é como Corinthians e Palmeiras, nada disso (afinal é Carnaval, galera!). Por outro lado, pensei assim: “o que os olhos não veem o coração não sente.” Então resolvemos não tocar mais no assunto. Cada qual no seu trio e nos falaríamos na volta. Certo?
Errado.
Alguns dias antes do Carnaval (na verdade três), baterias a postos (no caso de Salvador, guitarras), meu namorado sofre de uma crise de apendicite aguda. Entrou em cirurgia e eu, como boa namorada, fiquei no hospital, sempre ao lado dele. As mensagens no celular, de amigos muito preocupados, me diziam assim:
“Como ele está? Você vai vender seu abadá? Eu sei quem quer comprar.”
Várias. Várias mensagens desse naipe. Vocês querem esse amigos? Tô doando.
Minha resposta:
“Não. O meu abadá não está à venda, mas se alguém quiser comprar do Chiclete com Banana…”
Após a cirurgia, o moço ainda convalescendo…
– Então doutor, foi tudo bem?
– Tudo tranquilo. Agora é só repousar. Amanhã ele já sai do hospital.
– Que ótimo… Ah, doutor, uma pergunta: ele pode viajar? Por exemplo… ir para Salvador?
Tudo bem. Podem me chamar de “sem noção”, mas é importante reunirmos todas as informações antes de tomarmos qualquer decisão, certo? Talvez eu não devesse fazer estas perguntas perto da minha futura sogra, mas eu não estava pensando direito.
(***)
– Amor, não se preocupa. Eu vou ter que ficar em repouso absoluto. Não vai deixar de viajar só por minha causa. – o fofo do meu namorado me disse no dia seguinte, já recuperado da anestesia.
– Bom… Já que você está insistindo tanto, eu vou. Pensando bem, acho que eu só ia atrapalhar ficando aqui, não é mesmo?
Dá pra parar de me julgar? Gente!!! Presta atenção: Carnaval em Salvador.
Uma grande amiga me fez a seguinte pergunta:
“Olha só, vou dizer isso porque sou sua amiga: você não acha que é um sinal para você não ir?”
Essa mesma amiga tinha feito uma oferta indecente pelo meu abadá, me cercava de todos os lados. Dá pra confiar?
(***)
Sexta-feira à noite, malas prontas, embarcamos no vôo da Gol para Salvador. Aqui vale contar duas pequenas coisinhas: nem todo mundo estava de malas prontas. Uma de minhas amigas se atrapalhou com os horários e não conseguiu buscar a mala em casa. Garota prevenida que é, sempre andava com a bolsa da academia no carro. Um top, uma bermuda e uma calcinha. Quem precisa mais que isso? E lá foi a Julia com sua malinha de mão para o Carnaval.
Naquele ano, a grande sensação era a Gol, a nova companhia aérea, que oferecia passagens mais baratas porque cortou o lanche dos passageiros. É a mais pura verdade. Nós acreditamos nisso. Pois bem: depois de quase três horas em Congonhas, sem sair do chão e comendo barrinhas de cereais, queríamos estrangular as aeromoças. O sonho da Gol acabou ali mesmo.
Contei isso foi só para vocês saberem que estávamos determinadas. Nada iria atrapalhar nosso feriado.
Exceto a febre. Quando cheguei no nosso apartamento (a uma quadra da folia), precisei de um cobertor e um anti-térmico. Eu ouvia vozes que eu não sabia se eram fruto do delírio da febre, se eram minhas amigas ou se era a consciência pesando. Elas diziam coisas assim:
“Isso é praga do namorado”
“Ela devia ter vendido o abadá para a Fulana. Inveja é uma merda”
“Deu tudo errado, mas ela insistiu em vir…”
Na minha cabeça, a febre tinha uma única explicação: gripe.
Por via das dúvidas (e também porque os remédios não estavam mais fazendo efeito), fui atrás de alguma mandinga para me proteger (afinal, eu estava em Salvador). Não precisei ir num terreiro, não. Fui na farmácia mesmo:
– Moço, pelo amor de Deus! Meu bloco sai meio dia e eu estou toda moída, com dor no corpo, febre alta. Nenhum remédio ajuda. Não sei é gripe ou praga do namorado. O senhor tem alguma coisa para me ajudar?
O moço coçou a cabeça, ficou me olhando e foi até uma prateleira. Voltou com um tubo (daqueles tubos de ensaio grandes, das aulas de química, sabe?), com um líquido amarelo, da cor de mel.
– Olha só, tome um desses, meia hora antes do bloco sair.
– O que é isso, moço?
– Esperma de zangão.
Não tive dúvidas. Comprei logo quatro, um para cada dia. Não quis nem saber do que se tratava.
Algumas horas depois, ao ouvir o primeiro acorde da banda, ao sentir aquela onda de energia subindo e tomando conta da massa, eu não me lembrei de mais nada. Só queria mesmo era correr atrás do trio.
E então, não havia mandinga, praga, febre, dor de cabeça que desse jeito. Foram cinco dias da mais pura alegria. Inesquecíveis, como um bom Carnaval deve ser.
O namorado? Bom, casei com ele. Mas essa é outra história. Boa folia a todos!
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Adorei!! Muito bom Andrea.. Rs rs bjssss
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