Predestinado
O ano era 1966. Copa do Mundo da Inglaterra, país dos inventores do futebol.
No dia 12 de julho deste mesmo ano, o Brasil fez seu primeiro jogo na Copa, contra a Bulgária, ganhando por 2X0.
Neste mesmo dia, seu Hermínio estava na Santa Casa de Santo Amaro, visitando sua esposa Elza, que acabava de dar à luz ao seu 4º filho. Ao mesmo tempo em que se sentia orgulhoso (seu filho nasceu forte, saudável e sua família agora estava completa e equilibrada: dois casais), ele também estava preocupado. Aqueles eram tempos difíceis e agora, com mais uma boca para alimentar, ele precisaria de muita sorte. Como encanador autônomo, só tinha certeza de uma coisa: o trabalho era incerto, mas as contas, não.
Assim que entrou no quarto, avistou sua esposa amamentando o caçula. Menino forte (quase 4,5 kg), cabelos e olhos claros, a covinha profunda no queixo, um rosto muito harmonioso. Parecia ter pelo menos 1 mês e não somente algumas horas de vida.
— Não é porque é meu filho, mas esse menino é bonito, não é mesmo? – ele disse enquanto olhava o ‘pacotinho’.
— Bonito? Nosso filho é lindo! – como toda mãe coruja que se preze, Elza não achou que aquele elogio estivesse à altura.
—Beleza não importa. O importante é que ele cresça forte, para ser um grande jogador de futebol. – disse Herminio animado.
— Por quê jogador de futebol?
— Ora bolas. Ele nasceu no mesmo dia do jogo do Brasil contra a Bulgária. Nós ganhamos de 2X0, isso só pode ser um sinal, você não acha?
Elza balançou a cabeça. Ela tinha coisas mais práticas a pensar.
— Certo. Jogador ou não, você precisar ir até o cartório registrar o menino.” – ela disse num tom mandão.
— Por que a pressa? Depois eu registro. – retrucou.
— Precisa registrar hoje, Hermínio. Sem a certidão de nascimento não podemos ir para casa. A maternidade não permite que eu saia com meu bebe sem o documento. São três quadras de distância, muito perto. – explicou Elza.
— Tá bom, já estou indo. – disse saindo do quarto.
— Espera! – gritou sua esposa.
Ele deu meia volta.
— Coloque o nome de Alex no menino.
— Alex? Por que Alex? Os amigos vão chamá-lo de Rex – disse.
— Que Rex, que nada. O nome dele será Alex Faria e ponto final – disse Elza com autoridade.
Ele fez uma cara feia e saiu do quarto meio inconformado com a ordem recebida.
Saindo da maternidade avistou um boteco ao lado. Parou no balcão e pediu uma cerveja (ele pretendia ficar ali por dez minutos, porque precisava registrar o menino).
Não teve jeito. O assunto em todos os lugares era a Copa do Mundo e não seria ali, no balcão do boteco que seria diferente.
Pelé e Garrincha tinham feito os gols daquele dia, dá pra acreditar? Com uma dupla dessas, todos tinham certeza de que ganharíamos aquela copa, uma vitória com sabor especial, dada a rivalidade com os donos da casa. O Tri-campeonato Mundial seria nosso.
Hermínio amava futebol. Jogava todos os domingos num time de várzea do bairro, onde podia mostrar suas habilidades com a redonda. O time do coração era o São Paulo, mas na alma, estava a Seleção Brasileira.
Os dez minutos e uma única cerveja se transformaram em meia dúzia (é o que ele conta). Foram duas horas de conversa fiada, boas lembranças dos dois campeonatos conquistados pelo Brasil (58 e 62) e dos grandes craques de cada uma das seleções. Sem dúvida, era um dia de grandes comemorações.
Hermínio saiu do boteco, foi até o cartório, fez o registro de seu filho e voltou para o hospital, orgulhoso com o pedaço de papel na mão. Ele não contava exatamente com a cara de sua esposa ao ver o nome escolhido para seu filho. Para quem queria por nome de cachorro no menino, ela devia ter ficado bem feliz. Quem é que pode entender as mulheres?
E foi assim que conquistei o nome que trago comigo até hoje.
Cresci escutando essa história e, para falar a verdade, nunca gostei da escolha. Quando era adolescente, me apresentava para as garotas usando outros nomes: Marcelo, Ricardo. Nomes sonoros, bonitos e ‘normais’. Como todo bom adolescente, comecei a acreditar que meu pai escolheu esse nome só para provocar minha mãe e que talvez eu fosse um filho rejeitado. Nome é coisa séria.
Quando cheguei a fase adulta minhas fichas caíram. Meu pai era louco por futebol e batizando seu caçula com o nome de um jogador da Seleção Brasileira, encontrou uma forma de prestar uma homenagem à sua maior paixão.
Bem, não herdei as habilidades futebolísticas de meu pai, nem do meu irmão (que aos 14 anos de idade desistiu de ir para as categorias de base da Portuguesa para se tornar um office-boy e ingressar em uma grande empresa), tampouco acompanhei a paixão deles pelo time do São Paulo, mas herdei sim a paixão que os dois tinham pelo futebol e pela nossa Seleção.
O Brasil não ganhou a Copa de 66 e, quem diria, aquele jogo contra a Bulgária, no dia em que nasci, foi o último jogo em que Pelé e Garrincha jogaram juntos. Pelé acabou se machucando, Eusébio foi o grande nome da nossa seleção e a Inglaterra ganhou seu único título, em casa.
Lembro aos meus 4 anos de idade, em 1970, que vi o céu do meu bairro forrado de balões, comemorando o tri no México. Não esqueço, como muitos, daquele jogo da Argentina contra o Peru em 78 e daquela goleada foi sinistra. 82 foi a minha Copa. Chorei que nem criança quando o Brasil perdeu de 3 a 2 para a Itália. Em 86 vi o Zico perder aquele pênalti e o Sócrates, um dos meus ídolos, perder o seu também. Em 90 lembro somente que a Seleção não era uma equipe nem um time, muito por conta do interesse pela grana e pouco pelo futebol. Em 94 comemorei na Paulista o Tetra, com mais de um milhão de fanáticos. Em 98 amarguei a derrota para a França, justamente no dia do meu aniversário. Já em 2002 gritei penta logo cedo no domingo e parecia que aquele dia não teria fim. Em 2006, novamente a França nos fez chorar e em 2010, já no Itaú, vi nosso time perder para a Holanda em um bar na Mooca.
E finalmente chegamos em 2014. Aguardo ansioso pela Copa das Copas. Conseguimos ingresso para um jogo das oitavas de final. A família toda vai: eu, minha esposa, meus dois filhos. O amor pelo futebol, vem atravessando gerações: meu pai, meu irmão mais velho, eu e agora meus filhos, todos fanáticos.
Sou corintiano e brasileiro roxo, casado com a Andréa, pai do João Gabriel e do Vinícius, predestinado a gostar de futebol e tenho o maior orgulho do meu nome.
É com este orgulho, que hoje homenageio meu pai. Meu nome é Amarildo Faria.
*Amarildo “o Possesso”, jogou na seleção Brasileira de 1962, entrando no lugar de Pelé, que se machucou na época. Não foi convocado em 66, a grande ausência naquele grupo.
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Que emoção ler este texto, nem preciso dizer que chorei! Parabéns pela linda família e por ser o nosso amigo Amarildo Faria.
Bhs
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