Vou te contar um segredo.

2014-06-18 18.56.28

— Vou publicar um livro — tento encontrar palavras para descrever a expressão de algumas pessoas, quando eu dizia isso. Não acho. Talvez “impagável”, chegue perto.

Acredito que a maioria das pessoas tem segredos, manias, coisas que não contam a ninguém. Nossa imaginação voa, para aqueles segredos mórbidos, perversões sexuais, vícios e qualquer coisa que não seja bem vista pela sociedade. O meu (um deles, claro!) era esse: gosto de contar histórias, inventar personagens e situações, e gosto de colocar isso no papel. O segredo era bem guardado, seguro. Não poderia me causar mal nenhum.

Em algum momento, não sei dizer o que desencadeou isso, quebrei meu padrão. Num ato heroico, mostrei minha história para uma pessoa. Não sou boba, e é claro: se era para me expor dessa maneira, que fosse com alguém que me amasse. O amor compreende, perdoa, cala, consente. O amor é quase perfeito. E essa pessoa gostou. Gostou e queria mais. Gostou, queria mais e queria que eu compartilhasse.  Amor estranho, esse.

Se é para se arriscar, que seja uma grande aventura. Nada de saltar de paraquedas, escalar o Everest ou voar num planador. Me aventurei a mostrar a estória para mais uma pessoa. E mais outra. Quem sabe aquela outra. Mas era a coisa do “me engana que eu gosto”, porque essas pessoas me amavam também. Risco zero. E a corrente continuou, a coragem foi aumentando, os incentivos pipocando, até que eu verbalizei meu sonho:

— Vou publicar um livro.

Mas que ousadia… Nós somos uma raça evoluída, inteligente, e aprendemos a respeitar a opção sexual de cada indivíduo, a crença ou descrença religiosa e até a liberdade política (nem tanto). Mas, um livro?

Percorri um caminho que teve seu começo na ingenuidade, na fantasia. Depois tomei o caminho dos pés no chão. Escrever sempre foi uma coisa natural para mim. Difícil mesmo foi enfrentar o preconceito, ser ignorada e infantilizada. Se, por um lado, encontrei inúmeras portas fechadas, por outro tive um encontro inesperado com a generosidade, o bem-querer, a vibração e a torcida em estado puro.

Sou marqueteira, vendedora, publicitária, filha, mãe, esposa. São muitos os títulos que me cabem, mas o de escritora? Não encaixava.  Minha idade não faz diferença. Sento em bancos de escolas, aprendo e observo tudo, seja num chope com amigos ou numa reunião de negócios. Se meu intuito era publicar um livro, teria que ser do meu jeito. E meu jeito é preparar o terreno, estudar o mercado, demorar horrores para escolher uma editora e para ser escolhida pela certa, é travar batalhas com gigantes, ao estilo Davi contra Golias.

Detesto perder meu tempo com mágoas bobas. Não culpo o universo ou os outros pelo meu sucesso ou fracasso. Eu realizo. Sigo em frente. Ainda me lembro de algumas “oficinas literárias” das quais participei e do olhar crítico de escritores obscuros, que se irritavam com minhas perguntas práticas sobre o mercado livreiro, sobre engajamento, compradores, perspectivas de mercado. Arrepio. Provoquei arrepio em autores que achavam que sua contribuição para a humanidade (afinal de contas eles escreveram um livro), estava acima do bem e do mal. Se seus livros não vendiam, era puramente culpa da massa ignorante e analfabeta deste país terceiro-mundista, que não consegue reconhecer a genialidade dos nossos autores tupiniquins, incompreendidos.

Em uma dessas oficinas, no momento oportuno, mencionei as inovações tecnológicas no mundo da literatura, dando como exemplo os livros infantis, ricos em ilustrações, cores e movimento. Mostrei um livro no meu iPad, o Drácula, de Bram Stoker.  O livro, que na verdade se transformou em aplicativo, é de dar medo.  A narrativa é povoada de sons, sombras, efeitos especiais. Enquanto eu mostrava o livro e atraía alguns olhares curiosos, ouvi a seguinte frase: “Você chama isso de livro? Será que tem texto?”, seguida de uma risada desdenhosa. Por uma semana, todas as noites, participei de uma oficina literária que se chamava “Como publicar um livro” e que não mencionou, em nenhum momento, o livro digital.

Nem tudo é tão horrível assim. Inconformada, fiz um workshop sobre livros digitais. Outro público, outra vontade, outra curiosidade. Tá certo que o pessoal se desviava do assunto quando eu mencionava os números irrisórios desse mercado, a política de preços “reacionária” e “protecionista” das editoras ditas “tradicionais”.

É. Não sou escritora. Sou publicitária.

Descobri que escrevo “chick lit”, que editores não podem ter preconceitos, mas têm, que boa parte dos leitores é completamente ignorada, que opinião boa é aquela que coincide com a sua, porque o resto, é só o resto.

Não vou fazer aqui a defesa de um gênero literário, porque acho desnecessário. A matéria prima tem que ter algum valor, e nunca abri mão disso. Nem vou falar do submundo editorial que se apresenta para os novos autores desavisados. As propostas que recebi deixariam qualquer um maluco, dada a proximidade com a desonestidade (não pelo preço, mas pelas promessas).

Luta inglória. E tenho que me preocupar com outras coisas. A cadeia produtiva e criativa do mercado editorial precisa tomar consciência de que o futuro já passou. O futuro é ontem. Mas é mais fácil ignorar os sinais, e me dá a impressão de que, por se tratar de um universo criativo, é mais fácil viver no mundo da fantasia e ignorar os fatos.

O mercado “paralelo” literário existe porque o mundo editorial “oficial” está engessado no século XX. O Orkut nasceu e morreu, e as comunidades que saíram de lá e migraram para os blogs e fan pages do Facebook foram as que tratam de literatura. O último grande fenômeno editorial, gostem ou não, saiu dessas comunidades, pré-testado, aprovado, lido e propagado. Estou falando de E.L. James e seus 50 tons de cinza. E quando me refiro ao “mercado paralelo”, não estou falando da autopublicação. Apesar de estar aberta ao novo, conectada, não gosto e não consumo a tão aclamada autopublicação — um caminho curto, fácil e sem volta.

Meu primeiro romance foi publicado há poucos dias pela KBR, uma editora pequena, mas séria, profissional e visionária, muito alinhada com meus princípios. Ignorei os olhares desdenhosos, condescendentes, desaprovadores. E segui com meu projeto de lançamento. É verdade, montei um projeto, porque não sou escritora, sou publicitária. Minha equipe de planejamento, criação, execução, tráfego e logística é composta de uma única pessoa. Meu lado profissional se mistura com o pessoal, e, de uma hora para outra, meu feed de notícias no Facebook ficou lotado de homens pelados, casais se beijando, figurinhas e desenhos fofos. É divertido, é cansativo, mas estou em contato com elas: minhas leitoras.

Não é esse o papel do autor? Volto a dizer: o futuro é ontem. A conversa é online, o engajamento é difícil, mas com um só post numa comunidade virtual vendi 10 ou 15 livros em 5 minutos. Acha pouco? Elas respondem assim: “Tô comprando”, “Baixei”, “Tô lendo”.

Ontem produzi um vídeo para um evento de leitoras dos 50 Tons, que vai acontecer no Recife. Hoje postei um livro para uma cidade no interior do Rio Grande do Sul, que não tem agência bancária, mas tem internet. Vendi outro exemplar para Manaus. Elas publicam a foto do livro, da dedicatória, me perguntam quando vem o próximo.

E eu respondo tudo, com o maior prazer. Porque não sou publicitária. Sou escritora.

Lançado em 24/07, a cor dos olhos teus tem se mantido entre os 10 mais vendidos da Amazon.com, na categoria "Romances", a mais disputada da loja.
Lançado em 24/07, a cor dos olhos teus tem se mantido entre os 10 mais vendidos da Amazon.com, na categoria “Romances”, a mais disputada da loja.

 


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2 comentários em “Vou te contar um segredo.

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  1. Olá!!! Vi a sinopse do seu livro no blog TOO BEGE, adorei, me identifiquei com vc, pois sou casada, moro em SP e tenho dois meninos!!! Com certeza, assim que terminar de ler alguns que comprei, o seu será o próximo!!! Boa sorte!!!
    Edneya
    Blog: digalvao.blogspot.com

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