Sempre te vi, nunca te amei.

 

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Com o passar do tempo começamos a nos deparar com nossos medos. O medo de envelhecer, medo de ficar doente, medo de não ter mais dinheiro, medo de esquecer. É natural e inevitável.   Alguns deles  chegam mais cedo. Eu, por exemplo, tenho um medo danado da minha memória. Sinto cada vez mais que estou retendo menos.  Não é verdade. Minha lista de histórias sobre meus esquecimentos  – a maior parte delas bem antigas – é bem grande.  A história a seguir é real e, graças a Deus, bem nítida em minha memória.


Aquela era uma tarde típica de sábado.  Sabe aqueles  dias maravilhosos, com sol de inverno? Pois é. Inesquecível.

Combinei de encontrar  algumas amigas num bar da Vila Madalena.  Cheguei um pouco adiantada e fui para a mesa.  Era uma época bem diferente:  poucas pessoas tinham celulares e só nos restava olhar em volta. Bons tempos aqueles, em que a gente olhava nos olhos uns dos outros,  conversávamos e percebíamos os seres vivos à nossa volta.  E foi por esta razão que eu o vi: moreno, gato, a barba por fazer, o cabelo milimetricamente desalinhado, a camiseta justa, exibindo um peitoral de respeito. Olhei, ele olhou de volta.  Sorri, ele sorriu também,  exibindo aquele olhar de reconhecimento.   Meu coração disparou.  Não, não era só pelo flerte descarado, mas sim porque eu conhecia o cara, me lembrava da voz dele,  do sorriso dele e, por Deus do céu, como eu poderia saber que debaixo daquela camiseta havia uma tatuagem de dragão?

Pedi uma bebida e desviei o olhar, fingindo uma timidez que não era minha,  apesar de saber que aquela beleza estonteante continuava a  me olhar.  Eu era uma mulher jovem, solteira, vivia uma vida meio louca de baladas, mas será que eu tinha chegado a esse ponto?  Estava na cara que eu conhecia o fulano muito bem e me aterrorizava o fato de que eu nem sequer conseguia  me lembrar  do nome dele.  Imediatamente comecei a varredura cerebral:

  • Um antigo amigo de escola?
  • Um colega de trabalho?
  • Um parente distante?
  • Aquele bloco de carnaval… Ai meodeos!

Pior que não lembrar era o medo de admitir. E se ele viesse falar comigo? O que ele ia pensar de mim? Com certeza ele perceberia que, apesar de conhecer a tatuagem dele, lembrar perfeitamente de uma tal sunga branca, eu não sabia nada, digamos assim, sobre a personalidade do moço, o nome, por exemplo. Uma última olhada, de relance, bem discreta e pam! Minhas mãos começaram a suar: ganhei um sorrisinho sexy, daqueles de ladinho, do tipo pose-para-self (ok, na época eu nem sabia o que era isso).

Alguns minutos depois, sobrevivendo ao terrível ataque de pânico e ainda tentando ligar o lé-com-cré, fazendo uma lista dos porres perigosos dos últimos anos, minhas amigas e companheiras de balada chegaram.

Eu estava ensaiando, tentando encontrar a melhor forma de contar a elas meu drama, quando uma delas disse baixinho:

— Vocês viram quem está aqui na mesa ao lado?

— Não. Quem? — perguntei ansiosa. Minha sorte estava mudando. Talvez ninguém precisasse saber do meu problema. Ainda.

— O Zé da Silva (*),  aquele cara do BBB.

Três segundos depois, explodi em risadas. Impossível não dividir minha miséria. Eu realmente conhecia o cara em toda sua glória, só que pela TV (sim, eu já assisti ao Big Brother um dia).

E é por essas e outras histórias vividas que aprendi que posso esquecer de muitas coisas, de fatos, datas e pessoas, mas nunca, jamais  das risadas que já dei.

Em tempo:  Usei o nome “Zé da Silva” porque não me lembro de jeito nenhum do nome, nem da cara do nobre rapaz.

 


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2 comentários em “Sempre te vi, nunca te amei.

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  1. Andrea, você cada vez melhor. Muito legal. Esse foi o primeiro motivo da minha mensagem. O segundo é mais prosaico: é pra você não esquecer de mim, nem do meu nome: Gerson. Parabéns, beijos!

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