Os anos de chumbo

Se você não leu a primeira parte dessa história, clique aqui

20 de novembro de 1993.

Marcamos a data um ano antes, logo depois que meu pai deu ‘aquela forcinha’, ajudando com a entrada do nosso apê.  Entre idas e vindas, já eram oito anos namorando. A desculpa de que não tínhamos onde morar, acabava de ir por água abaixo e, se a gente se gostava, por que não? Além do apartamento (financiado pela Caixa em um número infinito de anos), tínhamos o consórcio da geladeira, da máquina de lavar e uma carta de crédito da Telesp com a promessa de que um dia, quem sabe, teríamos um telefone fixo. Com toda essa riqueza, não tínhamos com o que nos preocupar.

Não me peça explicações, mas de alguma forma, bancamos o casamento na igreja (com música, decoração, vestido de noiva, noivinhos) e uma festança para os amigos e boa parte do bairro. O casamento de dois festeiros inveterados tinha que ser inesquecível.

Casamos na Igreja São Bento do Morumbi. Foi  um casamento religioso, com efeito civil (detalhe importante de ser lembrado).  Embalados por Beatles, Legião Urbana e Queen, repetimos nossos votos, sem na verdade prestar qualquer atenção . Não temos fotos do casamento – o fotógrafo, único serviço que estava totalmente pago, não apareceu. Mas foi tudo filmado e até hoje, quando assisto, fico tentando entender o que eu estava fazendo ali. Uma pergunta esquisita, já que eu era a noiva.

post 2 casados

Exceto pela ausência de fotos (lembrando  que não existiam telefones celulares, máquinas digitais, nada das modernidades deste século), tudo foi do jeito que a gente queria.

No dia seguinte à festa,  contabilizado o dinheiro da gravata do noivo, decidimos seguir viagem para Ilha Grande, no Rio de Janeiro.  Ficamos mesmo em Paraty, porque o motor do carro fundiu.

Se eu fosse supersticiosa, teria prestado atenção aos sinais. Mas eu não era. Aos 23 anos, eu era apenas uma garota recém- formada, recém -casada e cheia de planos para o meu futuro. Ops, a partir de então nosso futuro.

O começo foi difícil: aquela casa não era a minha. Eu não sabia nada sobre lavar, passar, muito menos cozinhar.  As brigas eram bobas, mas comuns:  o futebol na TV,  quem tinha prioridade no banho, quem deveria fazer o que, quem zoneava a casa.  Não dividíamos as contas, cada um pagava o que ia aparecendo.  Mas se por um lado estávamos enfrentando os problemas comuns da convivência a dois, por outro…

Não sei qual era o outro lado. O que me lembro bem é que equilibrávamos a balança com muita balada.

Festa, muita festa, o tempo todo.  Nem sempre juntos.

Um ano depois de casados, descobri que devíamos ter levado a certidão da igreja até o cartório para registrar o casamento (lembra? Casamento religioso com ‘efeito civil’). Resumo da ópera: éramos legalmente solteiros (ainda não existia a tal união estável, blá blá, blá).  Eu queria resolver aquele imbróglio o quanto antes, mas descobri que meu parceiro não tinha intenção nenhuma de formalizar  o casório.

Se eu fosse mais esperta, teria prestado atenção aos sinais.

Mas eu não era esperta. Era na verdade uma menina, muito menos impetuosa do que tinha sido aos 15 anos, quando resolvi conquistar o conquistador. Era uma menina casada, imatura, insegura e um pouco assustada com meu futuro.

Eu não queria filhos. De jeito nenhum.  Talvez este fosse apenas mais um, de muitos sinais.

O conquistador, por sua vez, tinha só vinte e sete anos quando se casou. Pouco tempo depois,  mudou de emprego, começou a ganhar bem, comprou carro zero, um telefone celular (era um luxo naquele tempo).  O mundo e as mulheres estavam aos seus pés. E ele estava casado, amarrado, sufocado.

Mas continuávamos a festejar. Às vezes juntos, às vezes separados. E no  processo de festejar, perdemos as alianças, mas ninguém ligou.

Todos os sinais estavam lá, brilhando em luz neon, mas eu não os via.

No final de 1997 nosso primeiro casamento chegou ao fim.  A negociação consistiu no seguinte: ele entrou com o pé e eu com a bunda.

Lá no começo, eu disse que era uma história difícil de contar. Ainda é. O fim de qualquer relacionamento é triste, é sofrido, é sombrio.  O nosso não foi diferente.  Foi até que civilizado, guardadas as devidas proporções, mas doeu. E muito. Não gosto de falar de dor. Pior ainda daquelas dores que não sangram, mas te dilaceram.

IMG_3667Durante muito tempo tentei apagar esse período da minha memória.  Mas seria uma injustiça, porque não foi um tempo só de coisas ruins. Teve muita, muita coisa boa também.  É totalmente clichê, mas muito verdadeiro: as marcas e as cicatrizes que ficaram, fazem parte da nossa história e de tudo que nos trouxe até aqui.  E foi uma longa caminhada.

Como vocês bem sabem, este não foi o fim. Ao contrário, eu ainda não sabia, mas era só o recomeço.

Mas esta é outra história, que conto em Anos Rebeldes.

Passa lá!


Descubra mais sobre Pausa4fun

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

8 comentários em “Os anos de chumbo

Adicione o seu

  1. Andréa Eu me lembro de partes dessa história.
    Mas para mim sempre pareceu bem assim que vocês estavam dando um tempo, aparando arestas, renascendo para a vida a dois de vocês.
    Porque vocês são um casal lindo de se ver, é muito nítida a conexão que existe entre vocês dois, por isso, as vezes ouvia uma coisa aqui, outra ali, mas meu coração sempre soube que vocês pertenciam um ao outro, era questão de tempo, sei lá, o amor sempre existiu, e onde existe amor , existe também todo tipo de cura.
    Amo vocês, a família que vocês formaram, e peço sempre ao Papai do céu para abençoar vocês quatro.
    Agora conta mais porque quero saber.
    😘

    Curtir

  2. Sempre tive um carinho especial pelo Amarildo … pra mim Dinho …. e aprendi a gostar dessa fofa de Andréa e não poderia deixar de dizer que torço pra que esta história tenha mais um começo e que o fim nem seja mais cogitado …. amodoro vcs … sempre !!

    Curtir

  3. O amor de vocês está escrito nas estrelas , tudo tinha que ser dessa forma mesmo e nunca teve um final e sim um até breve !
    Essa história não tem fim …..

    Curtir

    1. Ah, Bari…Acho mesmo que era pra ser. Quando estava escrevendo o primeiro post, lembrei de vc indo lá em casa, conversar comigo porque eu tinha “terminado” o namoro, tipo faltando uns 15 dias para casar! Kkk

      Curtir

  4. Amiga, show, já conheço a história e participei de alguns momentos…. Adoro ouvir a história de vcs, pois é realmente incrível as coisas como aconteceram e como tudo acabou caminhando para vcs estarem juntos, com dois filhos lindos que amo muito!!! Para nós, é realmente show estarmos vivendo tantas histórias incríveis!!! Bjsss

    Curtir

Deixar mensagem para Adriana Rossi Cancelar resposta

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

Descubra mais sobre Pausa4fun

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo