Tem dias que a gente quase morre

Em poucos meses vou completar 50 anos. Além das dores nas costas, das visitas mais frequentes aos médicos e dos remédios de uso contínuo, a gente acumula experiências, não é verdade? Nada mais clichê, nem mais verdadeiro.

Entre as experiências acumuladas tem aquelas de quase morte. Não. Não estou me referindo àquelas coisas sobrenaturais, mas sim ao ‘quase morri” do dia a dia. Quantas vezes você ouviu alguém dizer: “Nossa, ontem eu quase morri!” ? Já ouvi muitas e eu mesma quase morri muitas vezes. Uma amiga minha vai além e diz assim: “Aquele dia, morri, mas voltei.”

2020 me brindou com uma experiência assim e, como não posso perder a piada, conto a vocês aqui.

Recentemente (na verdade há uma semana), me submeti a uma cirurgia. Esqueci de dizer que chegando aos 50 estou me sentindo mais corajosa e abestalhada, porque criei coragem para fazer uma plástica. Não vou contar onde, nem porquê. Importa saber que todo mundo tem medo de morrer e, quando você se submete a um procedimento assim por escolha, parece que a suas chances de “passar dessa para melhor” aumentam, afinal, ninguém te levou obrigado a uma mesa de cirurgia. A gente pensa no que as pessoas vão dizer, no quanto foi idiota morrer por isso, em como vai ser seu enterro e quem vai pagar suas dívidas. É um fato. Meio mórbido, mas é.

Pois bem, os procedimentos hoje em dia são seguros. Correu tudo bem e não, eu não faria outra (pergunte-me em algumas semanas para saber se não mudei de ideia).

Mas, voltando ao dia em que quase morri…

Após três dias no hospital, já amiga de todas as enfermeiras, estava louca para ir para casa. E assim foi feita a minha vontade. Ainda não sei porque a gente insiste em dizer que é melhor ficar em casa do que no hospital (onde eu tinha uma cama reclinável, enfermeiros à disposição, comida toda hora, internet e TV a cabo). Em casa tem internet e TV a cabo. Só. Vamos combinar que não é o ideal para quem está, digamos assim, quase morrendo.

Mas eu não tinha ideia de que o pior ainda estava por vir.

No dia seguinte à minha alta, depois de uma noite muito mal dormida, com tudo doendo (muito!), acordei com um incômodo extra, aparentemente sem relação com a cirurgia: uma forte dor no braço esquerdo. Uma dor que era fraca, mas que foi aumentando. Uma dor que irradiava por todo braço e ombro. Uma dor que fez todas as outras desaparecerem e minha pressão subir.

Neste momento, faço uma pausa e peço que você digite no Google: dor intensa no braço esquerdo. Aha! Infarto.

O momento era crítico e exigia medidas urgentes. Acordei meu marido, expliquei a situação (em total pânico) e corremos de volta para o hospital. Figura de linguagem. Não dava para correr.

Só mesmo uma emergência poderia me tirar de casa. Além da lentidão dos passos, da coluna curvada, eu ainda estava com ‘acessórios’ pós cirúrgicos, como por exemplo um dreno lateral e um par de meias horrorosas anti trombose. Por causa disso, só era possível vestir um robe e após uma noite péssima, mal dormida por conta das dores, devia estar com uma cara ótima.

Os pensamentos mórbidos do pré operatório viraram fichinha diante do trânsito das 7h da manhã. Cadê a sirene quando a gente precisa dela? Furamos o rodízio: uma multa não significa nada diante de uma veia “não pulsante” do seu coração.

“Não vai dar nem tempo de ficar bonita. Tanto sacrifício por nada”.

“Será que vão dizer que morri por causa da plástica ou vai ser mesmo do coração?”

” Será que tenho chance de sobreviver? Quem vai cuidar da reunião da semana que vem?”

“Devia ter deixado minhas senhas em algum lugar fácil.”

No pronto socorro, há um menu para você indicar seu sintoma e ser encaminhado para a triagem. Não havia a opção DOR NO BRAÇO ESQUERDO ou ENFARTO, mas um botão vermelho para DOR NO CORAÇÃO. Okay, eu não estava com dor no coração, mas estava enfartando, certo?

Aqui começam as boas notícias: se você estiver enfartando e conseguir socorro rápido, acho que você tem boas chances de sobreviver. O protocolo cardíaco é incrível: rápido e eficiente. Em poucos minutos (8 para ser exata) eu já tinha a confirmação por eletrocardiograma e por um exame de sangue específico para o coração, de que não estava enfartando. Em minha defesa, minha pressão estava alta, confirmando as fortes dores e fui medicada com Tramal na veia.

Primeiro pensamento, expressado em voz alta por mim e pelo meu marido (que estava, obviamente, quase morrendo também): “Graças à Deus!”

Mas se não era o coração, o que poderia estar me levando à morte? Sim, porque aquela dor não podia ser coisa boa.

De maca, fui encaminhada para o P.S., porque eu era uma “P.O. de dois dias” (P.O., sigla para “pós operatório”). Se não estivesse sentindo tanta dor, daria espaço para minha imaginação acreditar que tinha entrado num episódio de Grey´s Anatomy ou quem sabe Dr. House (já que minha dor aparentemente era inexplicável e estavam usando diversas siglas difíceis para falar sobre mim).

Ultrassom, hemograma completo, raio X do tórax. A dose de Tramal não fez efeito. Outro medicamento forte na veia. Nada de melhorar a dor.

Descartadas várias hipóteses (não muito menos assustadoras que o enfarte) e após o Raio X, a simpática doutora voltou (gente, os médicos são muito jovens para nós. Admito, rola uma crise de confiança).

Com um sorriso cauteloso, ela parecia estar me preparando para uma notícia ruim, muito ruim. Eu só queria saber se teria tempo de fazer alguns últimos pedidos, me despedir de algumas pessoas, essas coisas que a gente vê nos filmes. Talvez não houvesse tempo. Que triste.

“A senhora está ‘constipada’?

Levei algum tempo para entender que aquela palavra não era o nome de uma doença rara, pouco conhecida e de difícil tratamento. Ela estava perguntando se eu estava com o intestino preso. Fiz as contas.

“Sim”.

“Entendo. Pelo seu raio X, concluímos que a senhora está com GASES. Muitos GASES.”


Descubra mais sobre Pausa4fun

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

2 comentários em “Tem dias que a gente quase morre

Adicione o seu

Deixar mensagem para Mirian Di Nizo Cancelar resposta

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

Descubra mais sobre Pausa4fun

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo