Se eu soubesse o que hoje eu sei.

O Pausa4fun é um espaço que criei para privilegiar o bom humor, contar histórias boas, dar uma pausa no meu dia a dia tão corrido.

Mas nessa semana, com a história horrível do anestesista estuprador, resolvi que devia falar sobre experiências difíceis que vivenciei.  O que vou contar aqui, contei aos meus filhos, para que eles entendam nossa vulnerabilidade, para que eles não admitam que isso aconteça com outros ou mesmo com eles, que são adolescentes, vulneráveis e inexperientes. E, acima de tudo, que não tenham medo ou vergonha de falar, de pedir ajuda, de se defender.

***

O ABUSO

Eu devia ter 6 ou 7 anos. Naquela época, não existiam shoppings e a maior loja de compras de São Paulo era o Mappin, uma loja imponente no centro da cidade. Ir ao Mappin era um grande evento, porque íamos até lá para comprar nossos presentes de Natal.  Pois bem, como eu disse antes, não sei precisar quantos anos eu tinha, mas nunca me esqueci daquela noite. Os elevadores da loja eram um luxo à parte. com ascensorista uniformizado (para quem não sabe o ascensorista era o cara ou a moça que apertava os botões dos andares e dizia: “eletrodomésticos e televisores” ou “utensílios do lar” ou “brinquedos” – o andar mais desejado, claro). Entrei no elevador com meus pais e, como era pequena, corri para os fundos passando facilmente entre as pessoas. Eu era uma criança, feliz e ansiosa para escolher meus presentes. E ali, sorridente e sonhadora, encostada na parede do elevador, senti uma mão me acariciando. Um adulto, homem, ao meu lado, enquanto o elevador subia e ia parando de andar em andar, passava a mão em mim.  Eu não entendia o que estava acontecendo. Acho que não entendo até hoje, mas fiquei simplesmente ali, parada, incomodada, muito incomodada, porque de alguma forma eu sabia que aquilo era errado. O elevador abriu, corri e agarrei a mão da minha mãe e não larguei mais.  Comportada como eu era, fiquei mais ou menos uns 30 anos em silêncio. Não disse nada porque não sabia o que contar, talvez fosse minha imaginação, ou talvez eu tivesse feito alguma coisa errada. As palavras nunca foram ditas, mas aquele desconforto, aquele incômodo, aquela sensação ruim, nunca foi esquecida.

O ASSÉDIO

Aos 17 anos, eu era uma jovem independente: trabalhava desde os quinze, estudava à noite, namorava e já me defendia nos ônibus e bares da vida de assediadores idiotas. Eu fazia curso técnico numa escola particular e sempre fui extrovertida e bem-humorada. O diretor da escola me adorava e vivia brincando que era meu namorado. Sempre achei que fosse brincadeira, porque ele falava isso para a classe toda, na frente dos professores e era legal ser a protegida do diretor, certo? Não. Não era certo.

Nossa tão esperada viagem de formatura chegou.  Fomos de ônibus até Santa Catarina, viajando durante a noite e ele fez questão de se sentar ao meu lado. Não aconteceu nada, exceto que não dormi, incomodada e com medo de que ele, sempre em tom de brincadeira, avançasse o sinal. A brincadeira não tinha mais graça. Enfim, dias depois, quando fui pegar um documento na secretaria, ele me chamou para a sala dele e me convidou para jantar. O diretor da escola, que tinha idade para ser meu avô, me convidou para jantar. Recusei e então ele ficou bravo e disse que eu estava entendendo errado. Sim, a culpa devia ser minha.

A IMPORTUNAÇÃO

Aos 18, marquei uma consulta de rotina no ginecologista. Na época eu escolhia o médico pelo livrinho do convênio, sempre procurando por um consultório perto do trabalho.

Era um tal doutor Luiz, um senhor, muito atencioso, que me examinou e me pediu alguns exames. Fiz os exames, retornei. Ele me examinou e pediu outros exames. Fiz os novos exames e retornei. Ele pediu outros exames e disse que estava tudo bem, mas seria bom se eu fizesse aqueles outros exames e voltasse logo. O que era apenas uma sensação estranha, se transformou num incômodo. Eu estava acostumada a ir ao ginecologista, nunca me senti incomodada ou perturbada. Mas eu não estava gostando do jeito que ele me tocava, do tempo que demorava. Não houve nenhuma fala fora do contexto, nenhum carinho ou olhar que eu pudesse dizer que era errado. Só havia o incômodo.

Procurei outro profissional, desta vez pedindo indicação a uma colega de trabalho. Levei os exames, expliquei que eu achava estranho ter que fazer tantos exames, mas não tive coragem de falar sobre aquela desconfiança, sussurrada, escondida nos meus pensamentos. Dr. Miele, que é meu médico até hoje, viu todos os resultados e me garantiu que não havia absolutamente nada de errado comigo. Antes de me examinar, disse que o ideal seria que todos os exames ginecológicos fossem feitos pelo médico, sempre acompanhado por uma enfermeira.  Que infelizmente aquela não era uma realidade no Brasil e se por acaso eu me sentisse ‘desconfortável’ devia informá-lo imediatamente.  Minhas dúvidas deixaram de ser dúvidas, passaram a ser certeza, porque obviamente ele percebeu que tinha algo errado com o outro médico.  Mas eu não fiz nada, não falei nada. Me calei por muitos anos.

A ESPERANÇA

Era outra época, não falávamos abertamente sobre abusos, estupros, sobre sexo. Nunca tive este tipo de conversa com minha mãe. Nunca tinha visto ninguém fazer uma denúncia por ‘tentativa de estupro’, por “assédio sexual”.  Obviamente acontecia, mas era tudo muito escondido.  Nenhuma das histórias contadas aqui foram fisicamente violentas, mas todas elas me deixaram com cicatrizes. Tenho certeza de que, assim como eu, praticamente todas as mulheres têm alguma história do tipo para contar. Umas mais aterrorizantes, outras menos, mas todas tem.

Gosto demais de saber que uma nova geração de mulheres se formou. Mulheres que não aceitam mais o “incômodo” e botam a boca no trombone. Mulheres que dão nome e significado às coisas: abuso é abuso, assédio é assédio, estupro é estupro, feminicídio é feminicídio, não é crime comum. Mulheres que, quando desconfiadas, colocam o celular escondido para filmar e provar que não era só desconfiança.  Não somos loucas, não estamos vendo coisas. Quando um vereador passa a mão nos seios de sua colega e ela se sente imediatamente incomodada, ela não está “exagerando”.

Comportamentos inaceitáveis são o que são: inaceitáveis. Como mulher, mãe de dois homens, tenho o dever de ser chata e martelar o tempo todo na cabeça deles que respeito é bom e elas gostam. O dever de explicar que certos comportamentos enraizados em nós, são machistas, errados e não devem ser perpetuados.

Tenho esperança nas gerações futuras. Os monstros existem e nunca deixarão de existir, mas se homens e mulheres forem mais educados, preparados e solidários, teremos mais força para vencê-los. Eu acredito.


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Um comentário em “Se eu soubesse o que hoje eu sei.

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  1. Andrea, lendo suas histórias fui me lembrando das minhas… sim todas nós temos alguma história de desrespeito para ser contada… infelizmente!
    Parabéns pelo texto!
    Um dia quem sabe tomo coragem e escrevo o meu!

    Curtido por 1 pessoa

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